Tem aqueles momentos em que a gente não consegue dormir.

Faz o quê com eles?

Eu sempre me imaginei meio hemingway, bebericando uns drinks alcoolatrados, madrugada à dentro, deixava a barba por fazer… (claro que isso só funciona esteticamente se você já souber que a insônia vem com uns 15 dias de antecedência), e nesse momento vem a dica importante: nunca beba demais se você quer escrever, nunca escreva se beber demais.

Então, após duas horas tentando escrever algo, já pensava em fazer propaganda da cachaça envelhecida em barris de carvalho que me virou a cabeça e que me arrasta em cordas de hipno.
Ou só pra escrever aqui como quem visita um velho amigo.
Podia ser qualquer coisa, o importante é finalizar:

Um abraço, meu chapa!

Tinha bom tempo que não postava no blog, nem costumo dizer que posto, blogo ou nada do tipo, mas na metalinguagem a linguagem se remexe sozinha, e lá vão os dedos trupicando no teclado.

Quando viu, já foi.

Costumo dizer que escrevo. Costumava dizer. Tenho aquele sonho que todo blogueiro escrevedor deve ter, meio que de obrigação: o de ser escritor um dia. E foi nisso que me vi pensando quando, clicando nos links por aí e por aqui, vi tanta gente se despedindo dos blogs que eu passeava de vez em quando, e montando novos.

Pensei comigo: É a necessária sensação de acabar de escrever o livro.

É, acho mesmo.

Estou no terceiro blog, fora os comunitários, fora os quase nascidos, e vez em quando me vejo com vontade de fechar esse aqui e abrir outro.

Não, deixa quieto. Por enquanto, não.

Preciso só deixar registrado: Vou correndo aqui, vou correndo todo dia; não tá fácil, não. Mas de vez em quando me dá vontade de agradecer, e ter essa vontade de vez em quando, é bom.

Volto.

Sacudir a poeira das coisas novas que já tem gosto de antigas.
Pedra e metal batendo, som do mesmo.
Eco.
Os sábios dizem que só os tolos apressam a madrugada,
e alguns tem isso como certo.

cala a boca, ela diz e eu obedeço. me beija com força e me dá um tapa, eu fico quieto, deixo ela bater. não vai falar nada? morde a minha boca devagar e me diz umas obscenidades no ouvido. típico, eu penso. fico calado, só esperando. esperar é o que eu faço de melhor. ela gosta. ela não gosta. ela nem imagina. me pergunta porque eu esmurro meu teclado e destruo ele. vou ter que comprar outro, de novo. droga. ela diz que gosta do meu cheiro de whisky. eu sei que ela adora. coloca um cd. tudo bem. adoro seu cheiro pela manhã. não, não toma banho, ela diz e me abraça. morde a orelha, me morde, ela pede. eu obedeço. eu mordo. toda. devagar. tudo de novo. isso, ela diz. muda o cd. qual? vc escolhe, agora vc escolhe. pingo de suor. escolho a música e deixo no repeat. ela vai se irritar e eu adoro. para de morder e beijo. bebemos de nossas salivas até ficarmos tontos, sem ar. não! ela me segura, não abre a janela. quero o calor. minhas mãos queimam, nosso quarto queima. nosso, o caralho! ela sempre joga na minha cara que é dela. e esmurram a porta. não, ninguém entra. não, só nós dois. sim, eu digo. a mesma música sem parar. horas. a mesma música. eu quero morrer uma morte bonita, ela diz. nenhuma morte é bonita, eu digo. não como eu quero morrer. me mata, deixa eu acender um cigarro e me morde, me beija. me experimenta de todos os jeitos. eu obedeço. acende um cigarro no outro, eu pingo de suor. calor. eu quero tudo agora. porra. isso. isso. filho da puta, ela grita.

seufilhodaputaporraputaqueopariu.

depois. bem depois. ela acende um cigarro pra mim. prefiro não te amar, ela diz.
e se perde na fumaça.

Todo mundo já conhecia aquele seu jeito brincalhão e espalhado como ele mesmo se definia. Todo mundo já conhecia também suas facetas diferentes, e fingidas indiferenças levemente disfarçadas a propósito de piada. Quase tudo era de pronto a fazer rir, ele mesmo vivia dizendo que inventava as suas pra não ter que esperar por ninguém pra entregá-lo risadas. E sorria, sorrir era fácil. Porém, de um certo modo solitário, um sorrir como se faltasse alguma coisa a lhe esquentar os lábios em noites de umidade variável, ou mesmo os esfriar. Precisa de um par ou um ímpar, um empate aos quarenta e cinco do segundo tempo em campo neutro. E daí, de posse de pensamentos como esse a rodopiar em sua cabeça sem parar, ele começou a andar com a cabeça meio baixa, mãos no bolso, já sem ofertar piadas a granel como em outros tempos. O seu sorriso já não vinha em ondas infinitas de mar aberto. Por assim ficar, entre as idas e vindas de sua vida caminhada agora a passos lentos e levemente indecisos, se pôs a procurar seu encaixe empático, seu alicerce de esperança que deveria ser tangível, como um sorriso de certa forma sempre o é. Na literatura, a se perder entre poemas e prosas infinitas, a persuadir os mais sábios através de leitura a lhe entregarem respostas, na música a se entreter de solfejos que se acostumava a repetir assobiando pelas ruas, a conversar entre mesas de bar com os ébrios profissionais, discutir com eles as agruras da vida com ou sem encaixe e experimentar a incerteza lhe tomar por completo numa manhã de ressaca infernal. E nada. Nada mesmo. Até que, caminhando com um livro na mão, cantarolando um sambinha e tomado de uma leve embriaguez se viu encantado. Viu todas as respostas num sorriso. Tudo que ele procurava apenas ali. Tudo fazendo sentido e ele sentindo tudo acontecer ao mesmo tempo, uma vontade de gritar, de sorrir, de cantar pro mundo. Tudo fez sentido. Durante algum tempo, tudo fez sentido. Pouco tempo.
Só lhe deixou uma tatuagem no coração
Escrita em garranchos com a letra de uma canção
Contava como seria se fosse possível apenas acontecer
Entre momentos de futuras lembranças remexer
Quando a única resposta, por fim
Viria num sorriso dizendo sim.

Chego ofegante após subir correndo até o 3º andar. Malditos prédios sem elevadores. Dizem que só é obrigatório ter elevador quando se tem mais de quatro andares, ou mais de três, sei lá, acho que teria subido pelas escadas de qualquer forma. Bato na porta e grito o nome dela mas duvido que responda. Prefiro acreditar que ela esteja dormindo e que não consigo acordá-la.
Insisto, aperto a campainha até provocar um curto e parar de funcionar. Grito que a amo, que uma porta não poderá me parar, que eu derrubo essa merda e vou acordar o prédio inteiro se ela não abrir e me ouvir. Ouvir tudo que tenho a dizer.
Voadoras, ombradas, chutes e nada da porta se mexer. Maldita porta resistente dos infernos. Deve ser madeira de lei, vou perguntar a ela de que tipo de madeira é. Boa porta.
A porta da vizinha se abre, ela me observa assustada. Ainda estou lá implorando que ela me receba em seus braços. A vizinha me olha. Não dou atenção, “se for preciso eu acordo o mundo”, grito.
– Psssiu…
Ela me chama por trás da grade de ferro do outro lado do corredor.
– Sim, senhora?
– Tem ninguém aí não.
– Como assim?
– Você namora a filha de seu João, é?
– É.
– Eles mudaram tem mais de um mês, lembra não?
– Ah, droga! – tapa na testa – Esqueci.
– Tem problema não. Bate a porta quando sair, viu?
– Sim, senhora.

E tamanha era a mania de falar sozinho que ás vezes discutia aos berros consigo mesmo, teimoso que era. E se odiava, se amava, se chorava, se batia, e não entendia e se explicava melhor e fazia: hum, hum, entendo.
Às vezes até cantava consigo mesmo, em um dueto meio descompassado, meio sem ritmo e inteiramente dúbio. Duplo, dupla. E era assim que, se algum dia houvesse conhecido solidão, já não se lembrava mais e talvez até, se interrogado sobre o significado da palavra, poderia discorrer até sobre sua etmologia mas, assim, saber o seu real significado, nem lembrança. Tamanha era sua paixão por si mesmo que nunca se separavam e viviam assim como grudados, sempre juntos. Passeava pelo parque ao pôr-do-sol, cinema, xadrez e até escrever um livro a quatro mãos (duas). A vida era boa, apesar de que às vezes, mas só de vez em
quando mesmo, sentia vontade de ficar sozinho.
Quis o destino que ela irrompesse aquele caminho seguro de solitariedade (por assim dizer) e o
arrancasse daquela letargia semi-programada que o impedia de notar a todas as outras. E, assim, de pouco em pouco, a imagem dela lhe parecia um tapanacara, um soco entre as costelas, um banho de água fria. Simplesmente não sabia como definir aquilo. Sentia-se como a cada dia, a cada vez que a observava atravessar a área na qual se deixava descansar naquele parque, a cada passo que ela dava espalhando alegria naquela sua beleza calma, o fazia perceber que a sua razão, a sua vida, seu coração fora expugnado sem misericórdia. E que, além disso, a conquistadora parecia não tomar conhecimento algum do seu feito. Isso precisava ser reparado. O tempo urgia e, por se fazer planta, eis que seus pés estavam plantados. Imóvel estava. Não poderia sair dali, não poderia alcançá-la. Destino inglório. Então, em um dia desses, um desses dias qualquer, ela caminhou até seu lado. Então lhe veio a idéia: pedir-lhe que trouxesse um machado. Ela de pronto lhe ajudou e continuou seu caminho. Jamais a alcançaria e agora já não importa mais. Agradecido, de machado em punho a observar suas imensas raízes a se espalhar e se aprofundar ao chão, só lhe veio um pensamento: Vai doer, mas precisa ser feito.

A tela em branco ainda está lá, no meio da sala, esquecida como um corpo morto, e branco. “Nenhuma tela é branca, é apenas vazia”, ela diria e, assim, levantando as mãos, dançaria uma pequena dança, rodopiando lentamente até parar perto de mim com o maior sorriso do mundo e os olhos pequeninos apertados, esperando por um beijo. E logo após beijá-la, ela sairia correndo e colocaria no som um dos seus cds do rolling stones e começaria a pintar.
Enquanto jogasse as tintas a esmo, brincando com o pequeno caos de cores à sua frente ela diria algo do tipo: “Estou numa fase ‘Wild Horses'”. E ouviria a mesma música por horas, enquanto pintava.
E aqui estou eu, alucinando enquanto busco algo que me aproxime dela, que me lembre dela. Cansado de cheirar as roupas que ela usava, de beber do frasco de perfume esquecido, de me embriagar com o Campari que ela amava, comprei uma tela e quero fazer o que ela mais gostava de fazer, quero repetir seus gestos e preencher essa casa com uma patética imitação da coisa mais bonita que já vi. Stones em primeiro lugar, “Qual?” opto por “Out of Tears”, perfeito. O som inunda a sala e eu começo a dançar e balançar, mas não como ela. Rasgo a dentadas os tubos de tinta e cuspo na tela, me esfrego nela, beijo e digo que a amo. Amo as tintas e quase chego a amar o vazio daquilo tudo. O vazio colorido. E com as mãos espalmadas eu espalho as tintas e as faço dançar. Horas passam. Quando o dia amanhece eu acordo abraçado à tela, no meio de uma sala vazia. A dor está lá, mas agora é colorida.

Quase se pode cortar o ar com uma faca, tamanha a densidade da fumaça que pouco a pouco a mesa do canto espalha pelo bar. A conversa corre solta e os litros de uísque secam a olhos vistos. Antônia percebe o garoto-quase-homem servindo as mesas. Percebe que ele a percebe. Seus olhos dançam, assim como ela costuma dançar no palco. A sua voz já não é a mesma, procura evitar o uísque que os outros sorvem demoradamente, hoje prefere um bom vinho doce. Se servem apenas seco ela pede discretamente um pouco de açúcar.
– Ô, garoto!
Ele vem rapidamente, atravessando a pequena selva de bêbados e mesas que estão como a planejar um possível quadro de Pollock.
– Olá, a senhora quer mais gelo?
– Estou bebendo vinho, me sirva mais um pouco.
Ele dá a costas correndo pra atender o pedido.
– Ei!
– Sim?
– A senhora tá no céu, viu?
Ela pisca o olho, ele sorri meio sem graça, olha pro chão. Não está acostumado a ver gente famosa por esses lados, a banda só parou pra comer, nem vão tocar aqui. Em algumas horas só o cheiro de cigarro será testemunha da passagem. Adiante, sempre em frente. Antônia está acostumada a correr, sempre atrás de uma fama que nunca chegou e que apenas um pouco se pôde fazer pelo interior do estado. Nada mais que isso. Esperança ela tem de sobra.
Ramiro a olha de longe, estão na mesma banda há quase dez anos. Ele a ama, ela sabe. Tentou de todas as formas conquistá-la, mas ela não quis. Tudo bem, ele não tem pressa, já se acostumou aos caprichos de beira de estrada dela. Mas espera, quem sabe ela será sua algum dia.
– Aqui está, esse é o melhor vinho da casa.
Antônia vê que o vinho é seco, mas prefere aceitar a gentileza do rapaz. João é um rapaz de cidade pequena, mas não quer passar o resto da vida ali. Vê nela uma oportunidade meio boba de escapar, quem sabe sumir no mundo junto com a banda. Ela parece ter gostado dele.
– Não quer sentar comigo?
– Meu turno termina em dez minutos, aí eu posso vir pra cá.
– Então, tudo bem. Te aguardo aqui.
– Sim, senhora.
O “senhora” foi quase um tapa. Ela torce a boca, bebe o resto do copo olhando pro nada. Talvez algumas coisas devessem mudar. Talvez mudassem pra melhor. Ela esperava. Levantou e pediu um cigarro a Ramiro. Ele acendeu, meio distraído.
– Te espero lá fora, preciso sair daqui.
Olhou no fundo dos olhos dele.
– Jure que vai me fazer feliz, porque, ao primeiro sinal de tristeza, eu te mato e vou embora.
– Se você for embora, eu me mato.
– Você é um cachorro, mesmo.
A esperança é uma canção doce numa noite fria.
– Vamos, princesa.

– Não adianta tentar explicar assim em palavras.
– Tá, tudo bem, não interessa mais mesmo.
Ela sabia que era assim que conseguia qualquer coisa de mim.
– Tá, tira o fone de ouvido.
– Mas tá baixinho, consigo te ouvir numa boa.
Ela não queria interromper o Tom Waits escorregando em seus ouvidos. Começou a chover torrencialmente, cães e gatos, cântaros, um toró. Fiquei pensando na cidade inundando. Ia ser uma trabalheira chegar em casa.
Vontade de encharcar a alma.
– Olha, vamos ver se você entende assim!
Peguei ela pela mão e arrastei até o meio da praça, saímos debaixo da proteção, a chuva invadindo as roupas, molhando os cabelos, um raio iluminou tudo, o clarão pintando o mundo inteiro de branco por menos de um segundo. Comecei a gritar, eu dançava com os braços pra cima, uma dança da chuva pra trazer mais chuva.
– Que merda que não dá pra tomar banho de chuva e fumar um cigarro ao mesmo tempo!
Eu gritei, mas não sabia se ela conseguia ouvir. Eu mal podia ouvir a minha voz. Então comecei “you know the day, destroys the night, night divides the day, tried to run, tried to hide”, eu era a chuva, eu era Thor, Chaac, Zeus, Tláloc, porra, eu era o próprio Tupã personificado deixando a chuva dançar sobre mim. Tirei a camisa que parecia pesar uns dez quilos e fiquei rodando por sobre a cabeça “break on through to the other side…”
Quando abri os olhos ela tava lá. Parada.
– Seu filho da puta, estragou o mp3 player.
Nesse momento a marquise onde estávamos antes da chuva desabou com um estrondo, o concreto se despedaçando pelo chão.
Ela me olhou com espanto.
Tinha tanta coisa que eu podia dizer naquele momento.
– Tá, vou nessa.
Apenas fui embora.

Dia 01 – 22:30 da noite (ontem?)

Não foi difícil fugir de lá, difícil foi descobrir onde eu poderia encontrá-la. E encontrando-a, encontrar a mim mesmo, quer dizer, meu corpo, ou o que quer que tenha restado dele. Minha cabeça já está dando voltas.
– Já estamos há horas rodando pela cidade, e ainda por cima com essa maldita bomba a bordo, não tem idéia de nenhum esconderijo dela?
– Escuta, Silvia, já te expliquei que ela não era terrorista quando nos conhecemos e até nos separarmos acredito também que não. No máximo, uma terrorista emocional.
– Caramba, você detonou mesmo com a cabeça dela, hein?
– Olha, simplesmente não deu certo, ok? Algumas mulheres simplesmente não entendem isso, querem que seja sempre como no começo…, ei, espera aí!
– O que foi?
– Como no começo, porra, ela só pode estar com meu corpo onde nos encontramos pela primeira vez…
– Ótimo, vamos pra lá.
– Eu não lembro.
– Como assim?
– Eu não me lembro onde foi…
– Ah, ótimo.
– Bom, acho que fomos ao cinema, mas o lugar nem existe mais, virou alguma outra coisa.
– Vamos pra lá, quem sabe você lembra de alguma coisa.
Pisei fundo, mas já era hora de trocarmos de carro, a polícia já deveria ter rastreado esse. Paramos rapidamente e pulamos pra outro. no mostrador, o relógio mostrava a urgência de nossa corrida: 23:15.
Paramos em frente ao lugar, agora era uma loja de roupas femininas, e Silvia que já estava bem nervosa, parou pra olhar um par de sapatos na vitrine.
– Acha que é uma boa hora, mesmo?
– Escuta só, me diz uma coisa: qual é esse lance de tara com andróides, hein? Porque preferir uma dessas a uma mulher de verdade?
– Achei que seriam menos complicadas.
– Fantástico, um chauvinista tecnológico. Posso morrer em paz, agora sim eu já vi de tudo nessa vida
Não foi nada difícil entrar, mas era complicado andar no escuro além do mais tentando fazer silêncio. Um barulho nos chamou atenção no fundo da loja e fomos direto pra lá. Havia uma luz acesa e, abrindo a porta, pude ver Márcia em frente a uma mesa na qual meu corpo estava estendido.
– Não acredito que chegou até aqui. – ela disse sem olhar pra trás – Achou que a loja não tinha sistema de segurança?
– Márcia, vamos conversar – ao entrar na sala é que percebi que havia uma outro corpo estendido ao lado do meu. – O que vc está fazendo? Quem é esse?
– Ah, esse aqui? esse é o novo você. Bom, ainda não é, mas farei a transferência agora mesmo. – então ela se virou e pude olhar nos seus olhos, havia algo de belo e maligno deuma forma que jamais havia notado antes. – Pode ver esse aparelho aqui? É ele que pode fazer esse pequeno milagre. E não há nada que vc possa fazer, basta apenas que eu aperte este botão…
Nesse momento, sem aviso algum, o gato pulou sobre o aparelho, nem imagino como ele conseguiu sair do carro, mas foi o tempo suficiente pra que eu pulasse sobre ela, caimos sobre a mesa ao mesmo tempo em que o botão era pressionado e tudo pareceu a ponto de explodir. A máquina rugia com o seu motor disparado a toda velocidade e raios se espalharam pelo quarto, como numa tempestade. Lutamos sobre a mesa, mas ela era mais forte, até que numa pequena esplosão, fomos lançados através da sala.
Num momento eu estava voando em direção a uma parede e no outro eu encarava o teto, só então percebi que havia voltado ao meu corpo original. Sílvia olhava atônita pra o meu “ex-corpo”, completamente destruído num canto da sala, enquanto Márcia havia caído sobre o corpo do outro cara. Comecei a me levantar e o gato voou sobre mim, tentando me atacar, conseguiu me arranhar no rosto mas eu logo o segurei pelo pêlo a uma distância segura, nesse momento percebi que Márcia se levantava desengonçada e, ronronando, esboçou um “miau”.
– Não acredito… – Silvia rolava de rir.
– Vamos embora daqui, chamamos muita atenção com esse barulho todo.
O resto foi fácil, fui direto à rodoviária pegar o dinheiro, deixei a bomba no lugar e liguei anonimamente para a polícia. O esquadrão de bombas era logo ali e não tiveram problemas para desarmar a bomba, eu mesmo pude assistir de camarote a uma distância segura.
– E agora? Pra onde vai? O que vai fazer com o gato? Quer dizer, com seu gato-andróide?
Me levantei e olhei pra o enorme relógio da rodoviária: 23:59.
– Amanhã é outro dia, na verdade, daqui a um minuto é outro dia e, quanto ao gato – Márcia me olhava furiosa de dentro da gaiola para viagens – Pode ficar.

fim

Dia 01 – 17:00 da tarde (ontem)

Eu já havia caído e batido feio com a cabeça quando percebi que a idéia de provocar o gato pra arranhar as cordas que prendiam minhas mãos era não só impossível, como estúpida. Estranhamente, minha cabeça não doeu. Silvia ainda não havia acordado e eu já estava começando a ficar preocupado, levando em consideração que havia uma bomba relógio há dois metros de onde eu estava. Finalmente resolvi reparar na bomba e percebi que ela estava programada pra explodir à meia-noite. O gato estava parado, apenas me observando e de repente deu um salto pra trás, como se algo o houvesse assustado. Percebi, então, que Silvia estava começando a engasgar e convulsionar furiosamente. Fiquei tentando me soltar e de repente conseguir quebrar as cordas, acho que foi a adrenalina.
Levantei rápido e corri para socorrê-la. Também não tive dificuldade para retirar as cordas que prendiam seus pulsos. Coloquei-a no chão e fiz uma fiz respiraçao boca a boca, massagem no peito, e de repente ela se acalmou e voltou a respirar normalmente, finalmente acordou.
– O que houve?
– Ainda estamos presos.
– Ainda ?
Expliquei rapidamente os últimos acontecimentos.
– Porra, e você ainda me conta nessa calma toda!
– Precisamos arrumar um jeito de sair daqui.
– Não me diga.
Comecei a vasculhar as paredes, e inclusive a porta, que parecia ser especialmente robusta e nada de achar uma maneira de sair. Silvia começava a esmurrar as paredes, aquilo não estava fazendo bem a ela e já começava a ficar com um certo olhar de maníaca.
– Temos que sair daqui… – ela começava a repetir sem parar.
Resolvi tentar a porta, corri e dei uma boa pancada nela com o corpo e pareceu ceder um pouco, corri novamente e quase a derrubei. Mais uma pancada e ela já estava ao chão.
– Como?… – ela me olhava esquisito, mas não disse mais nada.
Peguei a bomba, ela pegou o gato e saímos correndo, quando chegamos ao salão principal, que estava vazio, mas além do vidros da fachada se podia observar uma multidão de policiais se aproximando do prédio.
– Então, você conseguiu sair.
A voz de Márcia vinha de todos os lugares e de lugar nenhum.
– Onde você está ?
– Você está com um comunicador implantado na orelha e, caso não tenha percebido, não é o seu corpo que vc está controlando.
– O quê?
– Eu transplantei sua consciência pra esse corpo andróide que está aí, seu corpo original está comigo agora, talvez eu coloque uma consciência mais de acordo com o que eu esperava de você.
– Só pode ser brincadeira…
– Ah, é? Dá uma olhada no que vc tinha nas calças.
Olhei e tava tudo lizinho.
– Devolve meu corpo, Márcia, não tô brincando.
– Vai passar o resto dos seus dias fazendo xixi sentado. Se eu fosse você, me preocupava mais com os policiais que estão chegando. Adeus.
E agora, o que é que eu faço?
– Silvia, você tá rindo do quê?!

conclui na próxima…

Dia 01 – 15:00 da tarde (ontem)

– Oi, amor, tá se sentindo bem?
– Querida, eu nunca me senti melhor a minha vida inteira.
Não tenho uma idéia muito clara de quanto dormi, mas dormi, o que já é bom. Só espero que enquanto estive apagado ela não tenha me batido muito, nem os seus capangas.
– Espirituoso como sempre. Adorava as suas piadas, agora odeio.
– Não liga, não, amor, por você eu paro.
O tapa foi rápido, mas me deu a impressão de que ela aliviou no final. Poderia ter me machucado se quisesse.
– Você faz o que eu mandar, quando eu mandar. Entendido?
Ela ficou andando de um lado a outro, olhando pra mim e pra Silvia que, por sorte (dela), ainda estava desmaiada. Parou em minha frente e ficou brincando de apontar a arma pra minha cabeça. Ela tinha uma tara por armas laser, isso eu já sabia.
– Eu posso estourar a sua cabeça a qualquer momento, basta que eu queira. Sabe, Sal, quando você me largou eu mudei de vida, me reprogramei. Troquei o chip de programação amorosa que você me deu quando nos conhecemos por um de ódio. E é dos bons, Sal. Me ajudou a enxergar o mundo como ele realmente é, uma imensa merda. Eu não posso sentir cheiros, mas o meu simulador de odores me diz que tudo aqui fede, é tudo um emaranhado de coisas que morrem. Você é humano, Salvador, e você vai morrer, mas não será de velhice isso eu posso te garantir.
– Olha, Marcinha, tudo bem, o lance é entre nós dois, deixa a garota de lado.
– Ah…, entendo – ela fazia aquela cara de cínica incredulidade como se fosse uma humana perfeita. Cinismo é o tipo da coisa que só humanos deveriam fazer, ou nem eles. – Quer dizer então que você está preocupado com ela. Ela é boa, Salvador? Melhor que eu?
– Ninguém é melhor que vc.
Dessa vez o tapa que ela me deu machucou de verdade.
– Ah, Salvador, não te contei? Estou com emprego novo, é incrível o que se consegue quando se manda o currículo pros lugares certos. Estou numa organização terrorista e fui contratada pra destruir o belíssimo prédio no qual você está alojado nesse exato momento. No subsolo, é claro.
– Márcia, você tá louca? Você não pode fazer isso, que merda é essa?
Ela fez sinal pra que eu calasse a boca e obedeci. O segundo tapa ainda doía pracacete e o gosto de sangue já havia se espalhado pela boca.
– Tá vendo isso ? – Era uma caixinha de uns quinze por quinze centímetros – É uma bomba T. ela cria uma série de explosões sequenciadas, uma impulsionando a outra até que a força interior seja grande o bastante pra varrer uns três quilômetros de raio a partir do ponto zero.
– Porra…, você tá brincando, né? Praquê isso, não era pra derrubar só um prédio?
– Não encontrei uma bomba menor no mercado negro, essa vai ter que servir.
– Mas porque não falou logo? Eu tenho uma em casa, te empresto.
– Engraçado, né?
– O quê?
– Você acabou de soltar sua última piada.
Ela saiu sem dizer mais nenhuma palavra e era o momento de achar alguma forma de escapar dali.
– Silvia – chutei sua cadeira – acorda.
– Hã? – ela abriu os olhos e depois fechou, deixando cair a cabeça de lado. Droga. acho que vou ser o único a assistir nossa morte.
Êpa, um gato, mais um pra virar pó aqui dentro. Ele caminha calmamente entre nós dois, analisando e observando tranquilamente. Talvez eu possa dar um jeito. Talvez a combinação de um gato e uma idéia estúpida deêm certo.
Talvez.
– Oi, gatinho, vem aqui gatinho.

continua…

– oi, amor, tá se sentindo bem?
– querida, eu nunca me senti melhor a minha vida inteira.

Dia 01 – 9:35 da manhã (ontem)

Na verdade, era uma manobra muito simples. Eu pegaria Silvia pela mão e, dando uma girada com o corpo, a atiraria atrás do carro à minha direita, só então eu começaria a atirar no carro à esquerda. Esses malditos robôs são programados pra proteger propriedade alheia, talvez mais do que humanos. No momento em que estivessem processando o que fazer primeiro eu corria pro carro à direita e lançava uma das bombas, talvez desse tempo de corrermos. Pelo menos eu contava com isso.
A coisa funcionou mais ou menos até o momento no qual tentei me esconder atrás do carro, um dos desgraçados me acertou um tiro bem no rim esquerdo e eu caí sobre Sílvia, ela me olhando assustada com a explosão abafada.
– Acha que deu um jeito neles?
– Claro que não.
Não esperei eles se recomporem e saimos correndo dali.
– Você tá sangrando muito.
– Calma, já sei aonde ir.
Descendo pela avenida na qual estávamos agora, e mais uns dois quarteirões à esquerda da primeira transversal, ficava a respeitável loja de móveis de Marcão. O que poucos sabiam era que na parte dos fundos funcionava uma oficina de órgãos artificiais, clandestina, é lógico. Tinha comprado meu rim dele há uns três anos atrás. Bom material, o cara realmente levava jeito pra coisa. Pena que caçaram a licença dele. Nunca me contou mas eu soube que ele andou fazendo experimentos com ciborgues e eles já estavam proibidos há decadas. Só o Governo pode usá-los.
Não achei que seria uma boa idéia entrar pela porta da frente sangrando aos borbotões, nem saberia se ele estava em condições de fazer alguma coisa. Sabe como é, Marcão era chegado no exagero. E quando resolvia exagerar ia a extremos. Você não iria querer ter o rim operado se o médico estivesse completamente trêmulo e com uma dor de cabeça infernal, consequênncia de uma ressaca dos diabos. Chegamos à porta dos fundos e Silvia deu umas pancadinhas educadas. Ninguém respondeu e eu dei uns dois chutes bem mal-educados.
– Que porra…
Ele pareceu realmente surpreso em me ver. Surpreso e assustado.
– Porra, Salvador, vai embora, eu não posso te ajudar.
– Quéisso, Marcão? Sou eu. Vai me deixar morrer aqui fora?
Dava pra ver nos olhos dele que a questão havia sido levantada mas, há muito tempo atrás havíamos sido amigos de verdade e certas coisas não se pode ignorar.
– Entra logo, leva ele através daquela porta ali. – Rapidamente, com os interruptores certos sendo acionados, o cubículo até parecia com uma sala de cirurgia. – Salvador, isso não vai ser agradável, estou sem anestésicos.
– Whisky?
– Nem.
– Merda – era tudo que eu podia dizer e, enquanto ele trocava a peça, eu gritava, amaldiçoava e talvez até tenha criado um ou dois palavrões novos. Ao fim de duas horas eu era um homem novo, fora a dor excruciante que me assaltava do lado esquerdo. Porra, doía pra caralho. Eu precisava de uma cerveja, uma hidromassagem, porra, eu precisava que aquilo parasse de doer.
– Te aconselho a comprar alguma coisa logo pra aliviar isso aí. Pode piorar.
– Beleza, vou nessa.
Não era necessário um “obrigado” entre nós, nem um “até logo”, ou um “se cuida”. Um cara precisa de uma força, o outro ajuda ou não. Silvia parecia preocupada comigo e tentou me levar à uma farmácia.
– Não, a gente precisa ir até a rodoviária, depois eu posso sentar e cuidar disso. Precisamos da grana.
Não foi difícil chegar lá, mas vc precisa ter as conexões certas, como saber que tipo de táxi não é monitorado pela polícia. Alguns motoristas conseguem embaralhar as câmeras e o G.P.S. e cobram um extra aos clientes por isso.
Em cinco minutos chegamos lá, e foi relativamente fácil chegar até o armário. Foi exatamente um segundo depois que havia aberto a fechadura que me toquei de que a sacola estava diferente. Não saberia dizer em quê, mas parecia não ser a mesma. Peguei rapidamente e foi apenas tempo suficiente pra vê-la caminhando em minha direção: linda como uma deusa, uma imagem sagrada, o tipo de mulher que só de ver te dá vontade de sair cantando, mesmo que ela esteja com um disruptor sônico ultra-mega-power apontado pra sua cara. Mas não é só isso, ela me odeia. E com razão. Eu a abandonei há tempos atrás e andróides lindas e mortais raramente perdoam.
Ela me olhou de cima a baixo:
– Você não muda mesmo, né? Já tá com outra lambisgóia.

continua…

droga, acho que chegou alguém.

Dia 01 – 9:05 da manhã (ontem)

Agora tudo parece melhor, nada como um bom café da manhã com alguns belos entupidores de artérias como ovos, bacon e requeijão cremoso. Silvia ainda tá meio baqueada com os acontecimentos da manhã. Além disso, entre uma garfada e outra acho que ouvi ela resmungar “filho da puta” uma ou duas vezes. Bom, pra quem sempre falou demais, é até legal vê-la calada.
– Então – ela parou de comer de repente e me encarou – Você vai me contar o que veio fazer aqui ou não ?
– Claro – acendi um cigarro.
– Se importa de me esperar terminar de comer ?
– Tá bom, tá bom – apaguei o cigarro e chamei a garçonete – Me dá um conhaque.
Nem uma das duas me deu aquela olhada de “a essa hora?!” o que já é muito bom, sendo que não estou com a maior das paciências.
Fiquei ali parado, bebendo devagar enquanto ela terminamava de comer. Enquanto esperava pra poder fumar meu cigarro. Ficava olhando ao redor, analisando os tipos que perambulavam por aquele lugar àquela hora. Tipos esquisitos. Tudo bem, eu não podia falar muita coisa.
– Ok – ela falou limpando a boca com as costas da mão – Desembucha, me conta logo tudo.
– A história é simples – acendi o cigarro e ela fez cara feia – Eu tinha que receber uma mercadoria e redistribuir. Na verdade, muito simples, pegaria com uns caras e entregaria a outros.
– Ok, e como Léo foi morto?
– Ele pisou na bola. alguém soube do lance todo e ofereceu uma grana maior, ele tentou ganhar mais e ferraram com ele.
– Filho da…
– Não fica ressentida com isso, ele queria isso por você também. – segurei em sua mão e ela soltou – Preciso do colar.
– Pouco me importa, toma. – ela ficou olhando enquanto me entregava – Qual é o lance a respeito disso?
– Passei esse trabalho pra ele porque surgiu outro, pagaram adiantado. Mas, como não tinha certeza se conseguiria sair sem ser pego… – abri o colar – Escondi a chave aqui dentro e mandei ela guardar, ainda bem que te deu.
– E agora ?
– Simples, vou até o armário na rodoviária retirar a grana que deixei lá.
– Preciso de uma parte, a minha casa tá destruída.
– Já estava bem destruída quando cheguei lá.
– Sem piadinha, Sal.
– Olha, não tem problema, posso te dar uma parte, você some daqui, talvez esteja sendo procurada. – terminei o conhaque – Vamos embora.
Quando estava pra sair, percebi a garçonete falando ao telefone e nos olhando de canto de olho. Podia ser só impressão, mas não parecia coisa boa.
– Olha – falei pegando Silvia pelo braço – Acho melhor a gente se separar, estou sendo procurado e provavelmente já estão procurando por um casal. O maldito robô deve ter dado o alerta.
Ela continuou andando até sairmos do restaurante.
– Escuta bem, e eu só vou dizer uma vez, tá ?
Continuei calado.
– Não tem jeito de vc se ver livre de mim até que me passe alguma grana. Você me ferrou, ok ? Então, mesmo que eu me ferre andando com você, tô nessa até o final. Eu não tenho opção, é simples.
– Ok, ok – eu fiquei ali, balançando a cabeça positivamente, observando os dois robôs que se aproximavam rapidamente.
– Explica pra eles.
Ela se virou e logo os robôs começaram com toda aquela pataquada de “renda-se, você está preso”.
– Corre – eu disse puxando sua mão.

continua…

julho 2017
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