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Pô, vou te contar, um dia ela apareceu e tava com uma cara daquelas e pum!, pintou o céu de amarelo, amarelão mesmo, esquisito pra caramba e eu perguntando: “porra, mulé, colé a tua pra quê essa presepada toda?” Lógico que eu tava só dando uma de brabo, se ela viesse pra cima eu saía correndo feito doido que num sô besta de enfrentar ela desarmado, e olha, pra falar a verdade, nem armado, aí ela respondeu de lá: “Gosto de amarelo! Porquê? Tá achando ruim?” eu nem respondi, fiquei quieto, baixei a cabeça e fui pro quintal fumar um cigarro, aí deu merda, ela veio de lá já gritando e tossindo e ficando sem ar ao mesmo tempo: “tú num tinha parado de fumar, disgramado dos infernos?” aí eu me zanguei, levantei e falei com toda a propriedade: “Você vindo com esses negócios de xingamento pro meu lado num dá pra gente conversar”, pois que de lá ela pegou um vaso de água que tava perto da porta e jogou a água bem na minha cara e apagou o cigarro. Entrou e foi lá pro quarto e ficou calada. Num fazia zuada nenhuma. E eu fiquei de cá meio revoltado, quieto, sem saber o que fazer e fui pro bar do Neco. Tava eu na segunda cerveja e o filho da vizinha veio me chamar dizendo que ela tava me chamando em casa. Paguei e segui o rumo que eu já tava era ficando com fome mesmo. Só senti o cheiro da carne assada na entrada de casa. Fui pra mesa, mas antes lavei a mão, que sei que agrada ela. Aquela mesa arrumada era sua forma de pedir desculpas, e eu só aceitava, nem falava nada. Quando terminei de comer ela sentou no meu colo e deu um beijo na testa. Sorri e ela sorriu de volta. Nem sei se o céu tava ainda na mesma cor amarela, porque já era de noite mas, pra falar a verdade, nem ligava.

— O mau humor é uma coisa engraçada, você não acha?
Olhei pro lado e primeiro vi um conhecido livro de auto-ajuda em suas mãos, só depois meus olhos correram em direção ao seu rosto. Tinha um sorriso bonito e deve ter sido uma mulher muito bonita quando era mais nova, mas os anos deixaram marcas profundas, como grafiteiros num muro bem branquinho recém pintado.
— Acho que tudo pode ser engraçado. É tudo uma questão de ponto de vista, não?
Torceu um pouco o nariz.
— Talvez você tenha razão.
Ela parou por um segundo, olhava ao redor, parecia tomar coragem pra pedir algo.
— Você se importa de que eu passe na sua frente?
Estranhei, afinal de contas, só havia uma pessoa depois de mim na fila pro caixa eletrônico. Pensei em responder “Ah, isso não tem graça…”, mas ela pareceu ter lido meu pensamento e recuou.
— Não, não me importo. Pode passar.
O sorriso apareceu de novo. Ela seguiu em frente, fez o que precisava e me agradeceu ao sair. Um pequeno rasgo do universo faz tanto barulho em todo lugar e, às vezes, ninguém nota.

 

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