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— Ótimo, andamos isso tudo e não tem ninguém em casa.
— Claro, se você levar em consideração que isso já foi a casa de alguém.
— Porque, você acha que não parece uma casa?
— Sei lá, não acho mais nada.
Fiquei observando a pequena varanda, tentando imaginar uma forma de dormir no banco de madeira que ficava na parte descoberta, mas parecia que a noite castigaria ainda mais aquele lado.
— Já parou pra pensar em porque escolhemos certos caminhos em nossa vida?
— Tipo o quê?
— Tipo: porque e quando a gente descobre que carreira vai seguir? Por quê você virou fotógrafo?
“Lembro bem da sensação daquele caminho que fazíamos ao final do ano. Íamos todos visitar os parentes que moravam no interior, trocar presentes no Natal, apesar de ser um consenso de família não dar muita atenção a datas festivas ou se ater muito a tradições. Ficávamos eu e meus irmãos observando tediosos a estrada por horas, procurando algum gavião sobrevoando o caminho, alguma carcaça ou algum caminhão diferente. Qualquer coisa que ajudasse nossa hiperatividade a se acalmar. Eu sempre tinha a idéia de levar meu caderno de desenhos, mas era evidente logo nos primeiros minutos que não conseguiria desenhar nada com o sacolejar do carro. Restava observar as árvores correrem ao nosso redor, seguindo a faixa branca à beira da estrada.
Chegar lá era o momento de abraços e beijos e apertos de mão e copos enormes de água e caminhar um pouco pra acabar com o cansaço das pernas. Todos ficavam animados e eu e meu primos contáva-mos as novidades e fazíamos conjecturas sobre o que queríamos ganhar e o que poderíamos realmente ganhar. Afinal de contas, quando somos crianças alguns brinquedos são coisas caríssimas e inalcançáveis, e só nos resta aproveitar ao máximo os alcançáveis.
A noite chegou e a algazarra teve seu início após a ceia, quando a troca de presentes começou. Lembro que não me importava muito com presentes, era um garoto introspectivo e “estranho” como meus pais definiam. De fato, nunca gostei muito de brinquedos, e sei que muitas crianças são assim. Claro que não são a maioria. De qualquer modo, é claro que fiquei ansioso em saber o que ganharia. Recebi a caixa das mãos de meu pai e sentei um pouco afastado dos outros garotos. Queria aproveitar aquele momento lentamente. Fui abrindo a caixa e dentro dela retirei uma Câmera Love, acho que era assim que se chamava, uma daquelas câmeras descartáveis que estavam se tornando populares na época. Um dos garotos logo percebeu o que tinha nas mãos e chamou a atenção de todos. De repente, todos os bonecos, bonecas, carrinhos e etc, pareceram menos importantes para todos. Eu havia recebido um presente de adulto e me sentia especial com aquilo e com toda a fixação imediata que provocava.”
— Não sei. Talvez pelo mercado em expansão.
(continua…)
uma ótima idéia:
Jan Von Holleben
http://www.janvonholleben.com/dreams_of_flying.php
havia postado isso em outro blog e reencontrei por acaso. o site agora também tem uma lista de fotos enviadas pelos visitantes. muito bom.
