Todo mundo já conhecia aquele seu jeito brincalhão e espalhado como ele mesmo se definia. Todo mundo já conhecia também suas facetas diferentes, e fingidas indiferenças levemente disfarçadas a propósito de piada. Quase tudo era de pronto a fazer rir, ele mesmo vivia dizendo que inventava as suas pra não ter que esperar por ninguém pra entregá-lo risadas. E sorria, sorrir era fácil. Porém, de um certo modo solitário, um sorrir como se faltasse alguma coisa a lhe esquentar os lábios em noites de umidade variável, ou mesmo os esfriar. Precisa de um par ou um ímpar, um empate aos quarenta e cinco do segundo tempo em campo neutro. E daí, de posse de pensamentos como esse a rodopiar em sua cabeça sem parar, ele começou a andar com a cabeça meio baixa, mãos no bolso, já sem ofertar piadas a granel como em outros tempos. O seu sorriso já não vinha em ondas infinitas de mar aberto. Por assim ficar, entre as idas e vindas de sua vida caminhada agora a passos lentos e levemente indecisos, se pôs a procurar seu encaixe empático, seu alicerce de esperança que deveria ser tangível, como um sorriso de certa forma sempre o é. Na literatura, a se perder entre poemas e prosas infinitas, a persuadir os mais sábios através de leitura a lhe entregarem respostas, na música a se entreter de solfejos que se acostumava a repetir assobiando pelas ruas, a conversar entre mesas de bar com os ébrios profissionais, discutir com eles as agruras da vida com ou sem encaixe e experimentar a incerteza lhe tomar por completo numa manhã de ressaca infernal. E nada. Nada mesmo. Até que, caminhando com um livro na mão, cantarolando um sambinha e tomado de uma leve embriaguez se viu encantado. Viu todas as respostas num sorriso. Tudo que ele procurava apenas ali. Tudo fazendo sentido e ele sentindo tudo acontecer ao mesmo tempo, uma vontade de gritar, de sorrir, de cantar pro mundo. Tudo fez sentido. Durante algum tempo, tudo fez sentido. Pouco tempo.
Só lhe deixou uma tatuagem no coração
Escrita em garranchos com a letra de uma canção
Contava como seria se fosse possível apenas acontecer
Entre momentos de futuras lembranças remexer
Quando a única resposta, por fim
Viria num sorriso dizendo sim.

6 comentários
Feed de comentários deste artigo
abril 8, 2010 às 10:40
Gabi
Lindo.
poético, por ser vazio ou um vazio poético?
exatamente a situação pela qual milhares vêm passando todo dia, inclusive eu. a falta de sorriso que, sem querer, a gente acaba se acostumando e, com o tempo, se acostuma a esquecer de sorrir.
Apesar de ter feito sentido por pouco tempo, são as lembranças desse tempo que ficam. E outros tempos virão.. esperemos.
abril 8, 2010 às 16:56
Luiza
Já tava com saudades dos seus textos!!!
Bjos
abril 9, 2010 às 11:26
ricardocidade
Pois é, meu velho. Também achei que tá mais pra Ana “Vara” que pra Ivetão. Parar de desenhar bêbado.
Abraços!
Cidade
abril 13, 2010 às 12:40
felipe
Que textos bons!!! Vou adicionar e seguir acompanhando!
abs!
maio 9, 2010 às 13:22
viveca
demorou mas chegou lindamente, como eu sempre espero. Amei o texto.
entra dia desses no msn, saudades de vc bâbe =)
julho 21, 2010 às 15:06
carla
acabei de lamber o monitor aqui…
desculpa,mas é que não deu pra trancar a lingua!
que coisa.