E tamanha era a mania de falar sozinho que ás vezes discutia aos berros consigo mesmo, teimoso que era. E se odiava, se amava, se chorava, se batia, e não entendia e se explicava melhor e fazia: hum, hum, entendo.
Às vezes até cantava consigo mesmo, em um dueto meio descompassado, meio sem ritmo e inteiramente dúbio. Duplo, dupla. E era assim que, se algum dia houvesse conhecido solidão, já não se lembrava mais e talvez até, se interrogado sobre o significado da palavra, poderia discorrer até sobre sua etmologia mas, assim, saber o seu real significado, nem lembrança. Tamanha era sua paixão por si mesmo que nunca se separavam e viviam assim como grudados, sempre juntos. Passeava pelo parque ao pôr-do-sol, cinema, xadrez e até escrever um livro a quatro mãos (duas). A vida era boa, apesar de que às vezes, mas só de vez em
quando mesmo, sentia vontade de ficar sozinho.
Quis o destino que ela irrompesse aquele caminho seguro de solitariedade (por assim dizer) e o
arrancasse daquela letargia semi-programada que o impedia de notar a todas as outras. E, assim, de pouco em pouco, a imagem dela lhe parecia um tapanacara, um soco entre as costelas, um banho de água fria. Simplesmente não sabia como definir aquilo. Sentia-se como a cada dia, a cada vez que a observava atravessar a área na qual se deixava descansar naquele parque, a cada passo que ela dava espalhando alegria naquela sua beleza calma, o fazia perceber que a sua razão, a sua vida, seu coração fora expugnado sem misericórdia. E que, além disso, a conquistadora parecia não tomar conhecimento algum do seu feito. Isso precisava ser reparado. O tempo urgia e, por se fazer planta, eis que seus pés estavam plantados. Imóvel estava. Não poderia sair dali, não poderia alcançá-la. Destino inglório. Então, em um dia desses, um desses dias qualquer, ela caminhou até seu lado. Então lhe veio a idéia: pedir-lhe que trouxesse um machado. Ela de pronto lhe ajudou e continuou seu caminho. Jamais a alcançaria e agora já não importa mais. Agradecido, de machado em punho a observar suas imensas raízes a se espalhar e se aprofundar ao chão, só lhe veio um pensamento: Vai doer, mas precisa ser feito.

3 comments
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Julho 24, 2009 às 13:26
Rayanne
Fantástico.
**Estrelas**
Julho 26, 2009 às 01:14
Viveca
vc fez falta na nossa última sessão de eletrochoque… rsrs
adorei, como sempre… lembre disso aqui quando li, nem sei pq..
http://www.youtube.com/watch?v=i8M-Moo4imQ&feature=related
bjs!
Agosto 19, 2009 às 12:41
lareinefolle.
é a vida não é?
o que nos resta
senão arrancar
a pele meio morta
que fica pendurada
pelo coração?
se não a tiramos, ela apodrece e leva o resto junto;
se a arrancamos, ela abre a ferida para o mundo…
uma sinuca de bico,
é a tal da vida…