A tela em branco ainda está lá, no meio da sala, esquecida como um corpo morto, e branco. “Nenhuma tela é branca, é apenas vazia”, ela diria e, assim, levantando as mãos, dançaria uma pequena dança, rodopiando lentamente até parar perto de mim com o maior sorriso do mundo e os olhos pequeninos apertados, esperando por um beijo. E logo após beijá-la, ela sairia correndo e colocaria no som um dos seus cds do rolling stones e começaria a pintar.
Enquanto jogasse as tintas a esmo, brincando com o pequeno caos de cores à sua frente ela diria algo do tipo: “Estou numa fase ‘Wild Horses’”. E ouviria a mesma música por horas, enquanto pintava.
E aqui estou eu, alucinando enquanto busco algo que me aproxime dela, que me lembre dela. Cansado de cheirar as roupas que ela usava, de beber do frasco de perfume esquecido, de me embriagar com o Campari que ela amava, comprei uma tela e quero fazer o que ela mais gostava de fazer, quero repetir seus gestos e preencher essa casa com uma patética imitação da coisa mais bonita que já vi. Stones em primeiro lugar, “Qual?” opto por “Out of Tears”, perfeito. O som inunda a sala e eu começo a dançar e balançar, mas não como ela. Rasgo a dentadas os tubos de tinta e cuspo na tela, me esfrego nela, beijo e digo que a amo. Amo as tintas e quase chego a amar o vazio daquilo tudo. O vazio colorido. E com as mãos espalmadas eu espalho as tintas e as faço dançar. Horas passam. Quando o dia amanhece eu acordo abraçado à tela, no meio de uma sala vazia. A dor está lá, mas agora é colorida.

6 comments
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Junho 14, 2009 às 22:53
Viveca
Meu bem,
Você é minha atual referência em “como escrever lindamente” num blog.
Sou tua fã. Adorei esse.
bjs
vi
Junho 15, 2009 às 11:53
Luiza
UAU!! Só pensei nisso na hora que terminei de ler… estou arrepiada até agora!
Bjos
Junho 18, 2009 às 08:21
meuparedro
Perfeito.
Valia um livro todo em volta.
Tás foda, Moca.
Junho 23, 2009 às 08:49
lareinefolle.
sempre gostei de teus textos, mas este: perfeito.
o tal do amor que pinta, grita, mancha, marca… para sempre.
Junho 26, 2009 às 10:09
Beanes
ai ai…o amor. fodástico, man!
Julho 18, 2009 às 11:44
Stephanie
às vezes é necessário dar uma cara a dor – que nem precisa ser feia. ainda colorida, continuará exata e presente, latejando.
belo texto.