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A tela em branco ainda está lá, no meio da sala, esquecida como um corpo morto, e branco. “Nenhuma tela é branca, é apenas vazia”, ela diria e, assim, levantando as mãos, dançaria uma pequena dança, rodopiando lentamente até parar perto de mim com o maior sorriso do mundo e os olhos pequeninos apertados, esperando por um beijo. E logo após beijá-la, ela sairia correndo e colocaria no som um dos seus cds do rolling stones e começaria a pintar.
Enquanto jogasse as tintas a esmo, brincando com o pequeno caos de cores à sua frente ela diria algo do tipo: “Estou numa fase ‘Wild Horses’”. E ouviria a mesma música por horas, enquanto pintava.
E aqui estou eu, alucinando enquanto busco algo que me aproxime dela, que me lembre dela. Cansado de cheirar as roupas que ela usava, de beber do frasco de perfume esquecido, de me embriagar com o Campari que ela amava, comprei uma tela e quero fazer o que ela mais gostava de fazer, quero repetir seus gestos e preencher essa casa com uma patética imitação da coisa mais bonita que já vi. Stones em primeiro lugar, “Qual?” opto por “Out of Tears”, perfeito. O som inunda a sala e eu começo a dançar e balançar, mas não como ela. Rasgo a dentadas os tubos de tinta e cuspo na tela, me esfrego nela, beijo e digo que a amo. Amo as tintas e quase chego a amar o vazio daquilo tudo. O vazio colorido. E com as mãos espalmadas eu espalho as tintas e as faço dançar. Horas passam. Quando o dia amanhece eu acordo abraçado à tela, no meio de uma sala vazia. A dor está lá, mas agora é colorida.

 

Junho 2009
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