Quase se pode cortar o ar com uma faca, tamanha a densidade da fumaça que pouco a pouco a mesa do canto espalha pelo bar. A conversa corre solta e os litros de uísque secam a olhos vistos. Antônia percebe o garoto-quase-homem servindo as mesas. Percebe que ele a percebe. Seus olhos dançam, assim como ela costuma dançar no palco. A sua voz já não é a mesma, procura evitar o uísque que os outros sorvem demoradamente, hoje prefere um bom vinho doce. Se servem apenas seco ela pede discretamente um pouco de açúcar.
- Ô, garoto!
Ele vem rapidamente, atravessando a pequena selva de bêbados e mesas que estão como a planejar um possível quadro de Pollock.
- Olá, a senhora quer mais gelo?
- Estou bebendo vinho, me sirva mais um pouco.
Ele dá a costas correndo pra atender o pedido.
- Ei!
- Sim?
- A senhora tá no céu, viu?
Ela pisca o olho, ele sorri meio sem graça, olha pro chão. Não está acostumado a ver gente famosa por esses lados, a banda só parou pra comer, nem vão tocar aqui. Em algumas horas só o cheiro de cigarro será testemunha da passagem. Adiante, sempre em frente. Antônia está acostumada a correr, sempre atrás de uma fama que nunca chegou e que apenas um pouco se pôde fazer pelo interior do estado. Nada mais que isso. Esperança ela tem de sobra.
Ramiro a olha de longe, estão na mesma banda há quase dez anos. Ele a ama, ela sabe. Tentou de todas as formas conquistá-la, mas ela não quis. Tudo bem, ele não tem pressa, já se acostumou aos caprichos de beira de estrada dela. Mas espera, quem sabe ela será sua algum dia.
- Aqui está, esse é o melhor vinho da casa.
Antônia vê que o vinho é seco, mas prefere aceitar a gentileza do rapaz. João é um rapaz de cidade pequena, mas não quer passar o resto da vida ali. Vê nela uma oportunidade meio boba de escapar, quem sabe sumir no mundo junto com a banda. Ela parece ter gostado dele.
- Não quer sentar comigo?
- Meu turno termina em dez minutos, aí eu posso vir pra cá.
- Então, tudo bem. Te aguardo aqui.
- Sim, senhora.
O “senhora” foi quase um tapa. Ela torce a boca, bebe o resto do copo olhando pro nada. Talvez algumas coisas devessem mudar. Talvez mudassem pra melhor. Ela esperava. Levantou e pediu um cigarro a Ramiro. Ele acendeu, meio distraído.
- Te espero lá fora, preciso sair daqui.
Olhou no fundo dos olhos dele.
- Jure que vai me fazer feliz, porque, ao primeiro sinal de tristeza, eu te mato e vou embora.
- Se você for embora, eu me mato.
- Você é um cachorro, mesmo.
A esperança é uma canção doce numa noite fria.
- Vamos, princesa.

4 comments
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Maio 13, 2009 às 08:33
chaotic queen.
as vezes eu já nem sei o que é a esperança para mim…
mas é mais ou menos sempre assim, não? chega o inverno e nossas almas se encolhem, buscando o conforto em algum canto quente por aí… qualquer lugar, qualquer garrafa de vinho, qualquer lareira quase apagando no meio da madrugada.
Maio 13, 2009 às 18:42
Camila
gosto dos seus contos moca! figuração automática na minha mente.
Maio 17, 2009 às 22:10
Gil
Um detalhe.
E no final vai ser isso mesmo, o caleidoscópio total de todas as coisas.
Maio 19, 2009 às 14:46
Beanes
A esperança é Norah Jones na vitrola abrindo caminho para o amor. Muito bom, véio.