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Dia 01 – 22:30 da noite (ontem?)

Não foi difícil fugir de lá, difícil foi descobrir onde eu poderia encontrá-la. E encontrando-a, encontrar a mim mesmo, quer dizer, meu corpo, ou o que quer que tenha restado dele. Minha cabeça já está dando voltas.
- Já estamos há horas rodando pela cidade, e ainda por cima com essa maldita bomba a bordo, não tem idéia de nenhum esconderijo dela?
- Escuta, Silvia, já te expliquei que ela não era terrorista quando nos conhecemos e até nos separarmos acredito também que não. No máximo, uma terrorista emocional.
- Caramba, você detonou mesmo com a cabeça dela, hein?
- Olha, simplesmente não deu certo, ok? Algumas mulheres simplesmente não entendem isso, querem que seja sempre como no começo…, ei, espera aí!
- O que foi?
- Como no começo, porra, ela só pode estar com meu corpo onde nos encontramos pela primeira vez…
- Ótimo, vamos pra lá.
- Eu não lembro.
- Como assim?
- Eu não me lembro onde foi…
- Ah, ótimo.
- Bom, acho que fomos ao cinema, mas o lugar nem existe mais, virou alguma outra coisa.
- Vamos pra lá, quem sabe você lembra de alguma coisa.
Pisei fundo, mas já era hora de trocarmos de carro, a polícia já deveria ter rastreado esse. Paramos rapidamente e pulamos pra outro. no mostrador, o relógio mostrava a urgência de nossa corrida: 23:15.
Paramos em frente ao lugar, agora era uma loja de roupas femininas, e Silvia que já estava bem nervosa, parou pra olhar um par de sapatos na vitrine.
- Acha que é uma boa hora, mesmo?
- Escuta só, me diz uma coisa: qual é esse lance de tara com andróides, hein? Porque preferir uma dessas a uma mulher de verdade?
- Achei que seriam menos complicadas.
- Fantástico, um chauvinista tecnológico. Posso morrer em paz, agora sim eu já vi de tudo nessa vida
Não foi nada difícil entrar, mas era complicado andar no escuro além do mais tentando fazer silêncio. Um barulho nos chamou atenção no fundo da loja e fomos direto pra lá. Havia uma luz acesa e, abrindo a porta, pude ver Márcia em frente a uma mesa na qual meu corpo estava estendido.
- Não acredito que chegou até aqui. – ela disse sem olhar pra trás – Achou que a loja não tinha sistema de segurança?
- Márcia, vamos conversar – ao entrar na sala é que percebi que havia uma outro corpo estendido ao lado do meu. – O que vc está fazendo? Quem é esse?
- Ah, esse aqui? esse é o novo você. Bom, ainda não é, mas farei a transferência agora mesmo. – então ela se virou e pude olhar nos seus olhos, havia algo de belo e maligno deuma forma que jamais havia notado antes. – Pode ver esse aparelho aqui? É ele que pode fazer esse pequeno milagre. E não há nada que vc possa fazer, basta apenas que eu aperte este botão…
Nesse momento, sem aviso algum, o gato pulou sobre o aparelho, nem imagino como ele conseguiu sair do carro, mas foi o tempo suficiente pra que eu pulasse sobre ela, caimos sobre a mesa ao mesmo tempo em que o botão era pressionado e tudo pareceu a ponto de explodir. A máquina rugia com o seu motor disparado a toda velocidade e raios se espalharam pelo quarto, como numa tempestade. Lutamos sobre a mesa, mas ela era mais forte, até que numa pequena esplosão, fomos lançados através da sala.
Num momento eu estava voando em direção a uma parede e no outro eu encarava o teto, só então percebi que havia voltado ao meu corpo original. Sílvia olhava atônita pra o meu “ex-corpo”, completamente destruído num canto da sala, enquanto Márcia havia caído sobre o corpo do outro cara. Comecei a me levantar e o gato voou sobre mim, tentando me atacar, conseguiu me arranhar no rosto mas eu logo o segurei pelo pêlo a uma distância segura, nesse momento percebi que Márcia se levantava desengonçada e, ronronando, esboçou um “miau”.
- Não acredito… – Silvia rolava de rir.
- Vamos embora daqui, chamamos muita atenção com esse barulho todo.
O resto foi fácil, fui direto à rodoviária pegar o dinheiro, deixei a bomba no lugar e liguei anonimamente para a polícia. O esquadrão de bombas era logo ali e não tiveram problemas para desarmar a bomba, eu mesmo pude assistir de camarote a uma distância segura.
- E agora? Pra onde vai? O que vai fazer com o gato? Quer dizer, com seu gato-andróide?
Me levantei e olhei pra o enorme relógio da rodoviária: 23:59.
- Amanhã é outro dia, na verdade, daqui a um minuto é outro dia e, quanto ao gato – Márcia me olhava furiosa de dentro da gaiola para viagens – Pode ficar.

fim

Dia 01 – 17:00 da tarde (ontem)

Eu já havia caído e batido feio com a cabeça quando percebi que a idéia de provocar o gato pra arranhar as cordas que prendiam minhas mãos era não só impossível, como estúpida. Estranhamente, minha cabeça não doeu. Silvia ainda não havia acordado e eu já estava começando a ficar preocupado, levando em consideração que havia uma bomba relógio há dois metros de onde eu estava. Finalmente resolvi reparar na bomba e percebi que ela estava programada pra explodir à meia-noite. O gato estava parado, apenas me observando e de repente deu um salto pra trás, como se algo o houvesse assustado. Percebi, então, que Silvia estava começando a engasgar e convulsionar furiosamente. Fiquei tentando me soltar e de repente conseguir quebrar as cordas, acho que foi a adrenalina.
Levantei rápido e corri para socorrê-la. Também não tive dificuldade para retirar as cordas que prendiam seus pulsos. Coloquei-a no chão e fiz uma fiz respiraçao boca a boca, massagem no peito, e de repente ela se acalmou e voltou a respirar normalmente, finalmente acordou.
- O que houve?
- Ainda estamos presos.
- Ainda ?
Expliquei rapidamente os últimos acontecimentos.
- Porra, e você ainda me conta nessa calma toda!
- Precisamos arrumar um jeito de sair daqui.
- Não me diga.
Comecei a vasculhar as paredes, e inclusive a porta, que parecia ser especialmente robusta e nada de achar uma maneira de sair. Silvia começava a esmurrar as paredes, aquilo não estava fazendo bem a ela e já começava a ficar com um certo olhar de maníaca.
- Temos que sair daqui… – ela começava a repetir sem parar.
Resolvi tentar a porta, corri e dei uma boa pancada nela com o corpo e pareceu ceder um pouco, corri novamente e quase a derrubei. Mais uma pancada e ela já estava ao chão.
- Como?… – ela me olhava esquisito, mas não disse mais nada.
Peguei a bomba, ela pegou o gato e saímos correndo, quando chegamos ao salão principal, que estava vazio, mas além do vidros da fachada se podia observar uma multidão de policiais se aproximando do prédio.
- Então, você conseguiu sair.
A voz de Márcia vinha de todos os lugares e de lugar nenhum.
- Onde você está ?
- Você está com um comunicador implantado na orelha e, caso não tenha percebido, não é o seu corpo que vc está controlando.
- O quê?
- Eu transplantei sua consciência pra esse corpo andróide que está aí, seu corpo original está comigo agora, talvez eu coloque uma consciência mais de acordo com o que eu esperava de você.
- Só pode ser brincadeira…
- Ah, é? Dá uma olhada no que vc tinha nas calças.
Olhei e tava tudo lizinho.
- Devolve meu corpo, Márcia, não tô brincando.
- Vai passar o resto dos seus dias fazendo xixi sentado. Se eu fosse você, me preocupava mais com os policiais que estão chegando. Adeus.
E agora, o que é que eu faço?
- Silvia, você tá rindo do quê?!

conclui na próxima…

Dia 01 – 15:00 da tarde (ontem)

- Oi, amor, tá se sentindo bem?
- Querida, eu nunca me senti melhor a minha vida inteira.
Não tenho uma idéia muito clara de quanto dormi, mas dormi, o que já é bom. Só espero que enquanto estive apagado ela não tenha me batido muito, nem os seus capangas.
- Espirituoso como sempre. Adorava as suas piadas, agora odeio.
- Não liga, não, amor, por você eu paro.
O tapa foi rápido, mas me deu a impressão de que ela aliviou no final. Poderia ter me machucado se quisesse.
- Você faz o que eu mandar, quando eu mandar. Entendido?
Ela ficou andando de um lado a outro, olhando pra mim e pra Silvia que, por sorte (dela), ainda estava desmaiada. Parou em minha frente e ficou brincando de apontar a arma pra minha cabeça. Ela tinha uma tara por armas laser, isso eu já sabia.
- Eu posso estourar a sua cabeça a qualquer momento, basta que eu queira. Sabe, Sal, quando você me largou eu mudei de vida, me reprogramei. Troquei o chip de programação amorosa que você me deu quando nos conhecemos por um de ódio. E é dos bons, Sal. Me ajudou a enxergar o mundo como ele realmente é, uma imensa merda. Eu não posso sentir cheiros, mas o meu simulador de odores me diz que tudo aqui fede, é tudo um emaranhado de coisas que morrem. Você é humano, Salvador, e você vai morrer, mas não será de velhice isso eu posso te garantir.
- Olha, Marcinha, tudo bem, o lance é entre nós dois, deixa a garota de lado.
- Ah…, entendo – ela fazia aquela cara de cínica incredulidade como se fosse uma humana perfeita. Cinismo é o tipo da coisa que só humanos deveriam fazer, ou nem eles. – Quer dizer então que você está preocupado com ela. Ela é boa, Salvador? Melhor que eu?
- Ninguém é melhor que vc.
Dessa vez o tapa que ela me deu machucou de verdade.
- Ah, Salvador, não te contei? Estou com emprego novo, é incrível o que se consegue quando se manda o currículo pros lugares certos. Estou numa organização terrorista e fui contratada pra destruir o belíssimo prédio no qual você está alojado nesse exato momento. No subsolo, é claro.
- Márcia, você tá louca? Você não pode fazer isso, que merda é essa?
Ela fez sinal pra que eu calasse a boca e obedeci. O segundo tapa ainda doía pracacete e o gosto de sangue já havia se espalhado pela boca.
- Tá vendo isso ? – Era uma caixinha de uns quinze por quinze centímetros – É uma bomba T. ela cria uma série de explosões sequenciadas, uma impulsionando a outra até que a força interior seja grande o bastante pra varrer uns três quilômetros de raio a partir do ponto zero.
- Porra…, você tá brincando, né? Praquê isso, não era pra derrubar só um prédio?
- Não encontrei uma bomba menor no mercado negro, essa vai ter que servir.
- Mas porque não falou logo? Eu tenho uma em casa, te empresto.
- Engraçado, né?
- O quê?
- Você acabou de soltar sua última piada.
Ela saiu sem dizer mais nenhuma palavra e era o momento de achar alguma forma de escapar dali.
- Silvia – chutei sua cadeira – acorda.
- Hã? – ela abriu os olhos e depois fechou, deixando cair a cabeça de lado. Droga. acho que vou ser o único a assistir nossa morte.
Êpa, um gato, mais um pra virar pó aqui dentro. Ele caminha calmamente entre nós dois, analisando e observando tranquilamente. Talvez eu possa dar um jeito. Talvez a combinação de um gato e uma idéia estúpida deêm certo.
Talvez.
- Oi, gatinho, vem aqui gatinho.

continua…

 

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