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- oi, amor, tá se sentindo bem?
- querida, eu nunca me senti melhor a minha vida inteira.

Dia 01 – 9:35 da manhã (ontem)

Na verdade, era uma manobra muito simples. Eu pegaria Silvia pela mão e, dando uma girada com o corpo, a atiraria atrás do carro à minha direita, só então eu começaria a atirar no carro à esquerda. Esses malditos robôs são programados pra proteger propriedade alheia, talvez mais do que humanos. No momento em que estivessem processando o que fazer primeiro eu corria pro carro à direita e lançava uma das bombas, talvez desse tempo de corrermos. Pelo menos eu contava com isso.
A coisa funcionou mais ou menos até o momento no qual tentei me esconder atrás do carro, um dos desgraçados me acertou um tiro bem no rim esquerdo e eu caí sobre Sílvia, ela me olhando assustada com a explosão abafada.
- Acha que deu um jeito neles?
- Claro que não.
Não esperei eles se recomporem e saimos correndo dali.
- Você tá sangrando muito.
- Calma, já sei aonde ir.
Descendo pela avenida na qual estávamos agora, e mais uns dois quarteirões à esquerda da primeira transversal, ficava a respeitável loja de móveis de Marcão. O que poucos sabiam era que na parte dos fundos funcionava uma oficina de órgãos artificiais, clandestina, é lógico. Tinha comprado meu rim dele há uns três anos atrás. Bom material, o cara realmente levava jeito pra coisa. Pena que caçaram a licença dele. Nunca me contou mas eu soube que ele andou fazendo experimentos com ciborgues e eles já estavam proibidos há decadas. Só o Governo pode usá-los.
Não achei que seria uma boa idéia entrar pela porta da frente sangrando aos borbotões, nem saberia se ele estava em condições de fazer alguma coisa. Sabe como é, Marcão era chegado no exagero. E quando resolvia exagerar ia a extremos. Você não iria querer ter o rim operado se o médico estivesse completamente trêmulo e com uma dor de cabeça infernal, consequênncia de uma ressaca dos diabos. Chegamos à porta dos fundos e Silvia deu umas pancadinhas educadas. Ninguém respondeu e eu dei uns dois chutes bem mal-educados.
- Que porra…
Ele pareceu realmente surpreso em me ver. Surpreso e assustado.
- Porra, Salvador, vai embora, eu não posso te ajudar.
- Quéisso, Marcão? Sou eu. Vai me deixar morrer aqui fora?
Dava pra ver nos olhos dele que a questão havia sido levantada mas, há muito tempo atrás havíamos sido amigos de verdade e certas coisas não se pode ignorar.
- Entra logo, leva ele através daquela porta ali. – Rapidamente, com os interruptores certos sendo acionados, o cubículo até parecia com uma sala de cirurgia. – Salvador, isso não vai ser agradável, estou sem anestésicos.
- Whisky?
- Nem.
- Merda – era tudo que eu podia dizer e, enquanto ele trocava a peça, eu gritava, amaldiçoava e talvez até tenha criado um ou dois palavrões novos. Ao fim de duas horas eu era um homem novo, fora a dor excruciante que me assaltava do lado esquerdo. Porra, doía pra caralho. Eu precisava de uma cerveja, uma hidromassagem, porra, eu precisava que aquilo parasse de doer.
- Te aconselho a comprar alguma coisa logo pra aliviar isso aí. Pode piorar.
- Beleza, vou nessa.
Não era necessário um “obrigado” entre nós, nem um “até logo”, ou um “se cuida”. Um cara precisa de uma força, o outro ajuda ou não. Silvia parecia preocupada comigo e tentou me levar à uma farmácia.
- Não, a gente precisa ir até a rodoviária, depois eu posso sentar e cuidar disso. Precisamos da grana.
Não foi difícil chegar lá, mas vc precisa ter as conexões certas, como saber que tipo de táxi não é monitorado pela polícia. Alguns motoristas conseguem embaralhar as câmeras e o G.P.S. e cobram um extra aos clientes por isso.
Em cinco minutos chegamos lá, e foi relativamente fácil chegar até o armário. Foi exatamente um segundo depois que havia aberto a fechadura que me toquei de que a sacola estava diferente. Não saberia dizer em quê, mas parecia não ser a mesma. Peguei rapidamente e foi apenas tempo suficiente pra vê-la caminhando em minha direção: linda como uma deusa, uma imagem sagrada, o tipo de mulher que só de ver te dá vontade de sair cantando, mesmo que ela esteja com um disruptor sônico ultra-mega-power apontado pra sua cara. Mas não é só isso, ela me odeia. E com razão. Eu a abandonei há tempos atrás e andróides lindas e mortais raramente perdoam.
Ela me olhou de cima a baixo:
- Você não muda mesmo, né? Já tá com outra lambisgóia.

continua…

droga, acho que chegou alguém.

Dia 01 – 9:05 da manhã (ontem)

Agora tudo parece melhor, nada como um bom café da manhã com alguns belos entupidores de artérias como ovos, bacon e requeijão cremoso. Silvia ainda tá meio baqueada com os acontecimentos da manhã. Além disso, entre uma garfada e outra acho que ouvi ela resmungar “filho da puta” uma ou duas vezes. Bom, pra quem sempre falou demais, é até legal vê-la calada.
- Então – ela parou de comer de repente e me encarou – Você vai me contar o que veio fazer aqui ou não ?
- Claro – acendi um cigarro.
- Se importa de me esperar terminar de comer ?
- Tá bom, tá bom – apaguei o cigarro e chamei a garçonete – Me dá um conhaque.
Nem uma das duas me deu aquela olhada de “a essa hora?!” o que já é muito bom, sendo que não estou com a maior das paciências.
Fiquei ali parado, bebendo devagar enquanto ela terminamava de comer. Enquanto esperava pra poder fumar meu cigarro. Ficava olhando ao redor, analisando os tipos que perambulavam por aquele lugar àquela hora. Tipos esquisitos. Tudo bem, eu não podia falar muita coisa.
- Ok – ela falou limpando a boca com as costas da mão – Desembucha, me conta logo tudo.
- A história é simples – acendi o cigarro e ela fez cara feia – Eu tinha que receber uma mercadoria e redistribuir. Na verdade, muito simples, pegaria com uns caras e entregaria a outros.
- Ok, e como Léo foi morto?
- Ele pisou na bola. alguém soube do lance todo e ofereceu uma grana maior, ele tentou ganhar mais e ferraram com ele.
- Filho da…
- Não fica ressentida com isso, ele queria isso por você também. – segurei em sua mão e ela soltou – Preciso do colar.
- Pouco me importa, toma. – ela ficou olhando enquanto me entregava – Qual é o lance a respeito disso?
- Passei esse trabalho pra ele porque surgiu outro, pagaram adiantado. Mas, como não tinha certeza se conseguiria sair sem ser pego… – abri o colar – Escondi a chave aqui dentro e mandei ela guardar, ainda bem que te deu.
- E agora ?
- Simples, vou até o armário na rodoviária retirar a grana que deixei lá.
- Preciso de uma parte, a minha casa tá destruída.
- Já estava bem destruída quando cheguei lá.
- Sem piadinha, Sal.
- Olha, não tem problema, posso te dar uma parte, você some daqui, talvez esteja sendo procurada. – terminei o conhaque – Vamos embora.
Quando estava pra sair, percebi a garçonete falando ao telefone e nos olhando de canto de olho. Podia ser só impressão, mas não parecia coisa boa.
- Olha – falei pegando Silvia pelo braço – Acho melhor a gente se separar, estou sendo procurado e provavelmente já estão procurando por um casal. O maldito robô deve ter dado o alerta.
Ela continuou andando até sairmos do restaurante.
- Escuta bem, e eu só vou dizer uma vez, tá ?
Continuei calado.
- Não tem jeito de vc se ver livre de mim até que me passe alguma grana. Você me ferrou, ok ? Então, mesmo que eu me ferre andando com você, tô nessa até o final. Eu não tenho opção, é simples.
- Ok, ok – eu fiquei ali, balançando a cabeça positivamente, observando os dois robôs que se aproximavam rapidamente.
- Explica pra eles.
Ela se virou e logo os robôs começaram com toda aquela pataquada de “renda-se, você está preso”.
- Corre – eu disse puxando sua mão.

continua…

acho que tô ficando maluco, esse gato parece mesmo que tá rindo da minha cara. se eu não tivesse tentado me levantar da cadeira só usando a força, provavelmente não teria me espatifado no chão. agora preciso achar uma solução pra isso, talvez girando de lado. não. acho que estou mais machucado do que parece.

Dia 01 – 7:50 da manhã (ontem)

Ótimo! Agora, como vou entrar lá ? Não dá pra ser pela porta da frente, ele deve ter espalhado sensores por onde passou. Corro pro vizinho e tento derrubar a porta chutando com força. Droga, machuquei o tornozelo. Aperto a campainha.
- Quem é?
- Oi, a senhora podia abrir a porta, por favor ?
- Pra quê ?
- É uma emergência.
- De que tipo ?
- Eu sou da polícia, minha senhora, abra essa porta agora!
Ela abre a porta e me olha de cima a baixo.
- Você não é policial.
- Não, não sou. Sai da frente.
Entro empurrando ela e corro pra janela, que é a minha primeira idéia, mas ouço o clique atrás de mim.
- Parado aí, seu vagabundo.
Viro devagar e ela tá com um trabuco do tamanho do meu braço apontado pra minha cabeça.
- Escuta – tento dialogar – tem uma amiga minha no apartamento ao lado sendo atacada por um robô, preciso ir lá ajudá-la, por isso pensei em invadir pela janela do banheiro, que é onde ela está.
Ela abaixa a arma, coça a cabeça:
- Cinquenta reais.
- Fila da … – ela aponta a arma de novo – Tá bom, tá bom.
Pago e saio pela janela. Andando pelo parapeito entre uma janela e outra consigo me segurar no basculante e me balançar até a outra janela maior. É apenas o tempo suficiente pra que eu quase morra com uma saraivada de balas. Caio rolando pra dentro de relance e vejo Silvia me olhando assustada. Ainda viva. Ótimo.
- RENDA-SEAGORAOUSERÁELIMINADO.
- Ok, ok – levanto os braços.
Olho ao redor. Preciso de uma saída. rápido. Silvia me aponta alguma coisa.
- Que é?
- CALADOAGUARDEJULGAMENTO.
Nesse momento o desgraçado tá se conectando ao mainframe da polícia pra definir se deve ou não me executar no local ou me manter sob custódia até chegar o reforço. Nesse horário, com a cidade inteira checando e-mail, ele deve levar uns 15 segundos. Talvez.
Ela continua gesticulando e só então eu entendo. A caixa de eletricidade fica logo atrás de mim e, como isso aqui é um banheiro, deve ter canos atrás de todas as paredes. Vou precisar de sorte.
Dou um passo à frente como se fosse correr em sua direção e logo me movo lateralmente em direção à banheira. Ele começa imediatamente a atirar e, como eles sempre atiram à esmo despejando bala pra todo lado, não é difícil que atinja a caixa de eletricidade logo atrás de mim. as balas atravessam e atingem os canos que despejam água diretamente nele, junto com eletricidade, me dando poucos instantes pra pular até a banheira e me proteger da água junto a Silvia. O robô frita.
Quando a eletricidade parece ter sido cortada é hora de sairmos.
- Pra onde a gente vai agora – ela me pergunta e só então percebo o quanto está assustada.
- Escute, antes de sairmos, preciso de uma coisa: eu havia dado um colar a Leo. Tinha uma estrela de quatro pontas nele, era redondo…
Enquanto eu falava, ela puxou e me mostrou o colar no pescoço.
- Eu não sabia que vc tinha dado isso a ele. – Ela disse.
- Vamos embora daqui, no caminho explico tudo.

continua…

eu pude perceber a pequena sombra se alongar e espalhar pelo chão, fazendo a luz parecer ainda menor àquela hora. o maldito gato ficava me olhando, balançando a cauda como sorrindo sarcasticamente com a minha situação. não tinha idéia de quanto sangue havia perdido, nem de que horas eram, mas a noite parecia se aproximar a passos largos e, então, ela voltaria, disso eu tinha certeza. já não tremo mais com o frio, mas preciso ao menos conseguir levantar do chão, preciso comer alguma coisa. preciso me fortalecer. porra, eu preciso de um cigarro.

7:45 da manhã (ontem)

- Oi, minha linda, como andam as coisas por aqui? -
Ela nem se virou pra me olhar, tudo no lugar cheirava mal, porra, mal como o inferno. – Ok, tudo bem, eu entendo que você deve estar zangada, mas já faz um milhão de anos…
- Quatro anos, 2 meses e 12 dias – ela falou e eu imaginei que ela estivesse com alguma coisa na boca, devia estar comendo.
- Silvia, escuta, foi um acidente, eu não queria envolver o Léo, mas ele achou que poderia ganhar uma grana e eu apenas lhe mostrei o caminho, lhe apresentei as pessoas.
Ela resmungou alguma coisa que eu não entendi.
- O que vc disse ?
- Seu maldito bastardo filho da puta – num segundo ela estava em pé, vindo em minha direção. Brandia ferozmente uma faca na mão direita – Você o levou pra ser morto, seu miserável filho da mãe!
- Sil, calma…
- É – ela disse, hesitou um segundo e resolvi lhe arrancar a faca. num golpe rápido fiz ela largar e lancei em direção à pia, onde bateu num prato sujo há dias e lá ficou. Talvez grudada pela sujeira.
- Calma, me escuta – aos poucos ela diminuía a resistência. levei-a até o sofá. – Olha, eu já te expliquei essa história uma cacetada de vezes. Ele deu um vacilo, eu falei que era pra tomar cuidado.
Ela ficava me olhando, a cara inchada de choro, talvez tivesse chorado por quatro anos e ainda não fosse o bastante.
- Ele era meu melhor amigo, você acha que o colocaria …
Ouvi passos atrás da porta, passos pesados, e um clique. De um só pulo, emburrei Silvia e caí por sobre ela, com uma saraivada de tiros passando há poucos centímetros de nós dois. “Merda”, eu pensava, “não é possível que já me encontraram.” Me arrastei junto a ela, indicando o banheiro.
- Entre na banheira, essas balas atravessam muitas coisas, talvez a louça possa te proteger.
Ela entendeu e foi direto pra lá. Garota esperta.
Quando a porta estava totalmente destroçada é que eu percebi que era um daqueles malditos robôs com metralhadoras duplas no lugar das mãos. Algum imbecil decidiu que eles deveriam vir com alto-falantes. Absolutamente fantástico. Enquanto eles atiram centenas de balas por minuto em sua direção você é obrigado a ouvir o “The best of The Platters” ou “The very best of Connie Francis”. Eu dei sorte, esse pelo menos toca Stones. Pulo entre dois sofás cobertos com uma camada de sujeira, suficientemente úmida pra confundir os sensores de calor desse desgraçado.
- SALVADOR,ENTREGUE-SEESAIRÁILESO.
Belas palavras, mas eu vou calar essa sua boca rapidinho. Porém, acabo de me lembrar, eu fiz uma promessa de não matar mais ninguém e esses robôs malditos tem cérebros humanos neles. Porcaria, e agora? Eles pensam? Se pensam, logo existem? Um cérebro é um ser humano? Foda-se, ainda tenho uma última bomba de ácido aqui, vou detonar com as pernas dele, talvez me dê tempo suficiente pra fugir.
Espero ele chegar mais perto e atiro um dos jarros que havia sobre a mesa de centro. A rosa estava tão morta que não dá pra saber qual fora sua cor. O jarro se espatifa do outro lado e enquanto ele se vira pra fazer mira, tenho o tempo suficiente pra atirar a bomba. Pulo por sobre o sofá quase tocando o desgraçado e saio correndo em direção à porta. Escuto a explosão e já estou no corredor sorrindo satisfeito. Foi muito fácil.
Então me lembro de Silvia, ainda no banheiro.
Droga.

continua…

Assim como
uma força da natureza
lavra intenso
nossas peles
em incêndio.
E luz
a me mostrar
o céu em brasa
como voz.

Labaredas de nós dois,
fogueira,
ao sair faísca
do pouco de ar
entre meus olhos
e o teu sorriso.

Porque,
sim,
o inflamável
é invisível aos olhos.

 

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