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Sou bobo mesmo
Eu sei, admito
Mas, por inteiro,
Um louco por seu sorriso
Inteiro da barba ficando branca
Dos olhos de noite em claro
Da boca com gosto de cerveja
E do ocasional-vez-em-quando cigarro
Imagina que estou aí
Do seu lado, agora
E que meus beijos são band-aid
Pra curar a raivinha dessa hora
Eu queria poder pegar cada segundo, cada imagem do seu sorriso, cada silêncio ao nosso redor, cada som que fazemos, cada cheiro que senti no seu cangote, cada visão da tua boca de canto de olho, cada piada boba, cada conversa, cada panfleto não refilado, cada fazer, cada sentir, cada poder, cada agora, daqui a pouco, amanhã e ontem, cada ligação, e-mail, surpresa, pergunta meio tímida, cada torta de maçã de madrugada, cada sushi, cada praia às 5:30 da tarde, cada bikini branco, cada brotoeja, cada sussurro, gemido, susto, banco de praça, gosto de siriguela, de cerveja, de suor, de sexo, de sorvete, cada arrepio, cada repelente, calor, frio, acordar, dormir, acordar pra voltar a dormir, café na cama, cada abraço, cada oi, cada tchau,
pra poder pintar um quadro, escrever uma sinfonia, um rock, um baião, um xaxado, um roteiro, um poema, um livro, um epitáfio, construir um monumento, desenhar uma tatuagem, inventar uma palavra, uma religião, criar um conceito, uma dança, um filme, uma peça, um jogo, derrubar um paradigma, desenvolver uma teoria, pichar um muro, iniciar uma revolução, uma guerra, conquistar a paz e descobrir um novo mundo.
Só pra poder durar pra sempre.
Adriana achava que dia de chuva era bonito. Pintava panos de prato junto com a avó e passeava de bicicleta no laguinho ao lado do lado do lado de lá do prédio onde morava. Brincou de boneca até os doze e queria casar virgem mas não aguentou. Se apaixonou apenas uma vez e a sua paixão ainda pulsa por dentro, corre feito cavalo chucro às vezes. Até coice já deu em alguns momentos. Gosta de música clássica mas não conta pra ninguém porque todo mundo a acha metida quando comenta. Leu tudo de Clarice Lispector e adorou. Leu tudo de Hilda Hilst mas não tem certeza. Pega todo dia o mesmo ônibus no mesmo lugar à mesma hora todo dia.
Paulo Márcio acha que trabalhar enobrece e enriquece. É teimoso e gosta de sorvete, mas acha que sorvete faz mal e só vai comer depois que remover as amígdalas. Joga na Sena e, às vezes, na Esportiva. Ouve punk e quer aprender gaita um dia. Corria na praia mas machucou o tornozelo. Andava no calçadão mas encheu o saco. Ia comprar um Playstation mas achou melhor não. Se apaixona quase todo dia e nunca duas vezes vezes pela mesma mulher. Lê Rubem Fonseca e acha tudo engraçado. Pega todo dia o mesmo ônibus no mesmo lugar à mesma hora todo dia.
Fez o destino que ambos cruzassem,
lado a lado,
sobre rodas e barulho.
Olhos nos olhos, amor à primeira vista,
rumando a esmo,
no mesmo fluxo.
Nunca mais se viram
depois do sinal aberto…
Mesmo assim tão longe,
mesmo assim tão perto.
