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Pequenos dragões voando ao redor e nem nos importamos. O fogo aqui dentro é consumível, e nossa saliva evapora em meio ao samba ritmado de nossas línguas. Somos senhores do nosso pequeno pedaço de inferno, transformando o caos em sussuros, os sussuros em mantras, repetidos em seus próprios movimentos de moto-contínuo aeróbico. Assim, me vejo pensando: As coisas pequenas são um muito tanto quando se acorda com gosto de morango.

Noite passada eu vi o seu sorriso no rosto de outra mulher. Eu a vi dançando exatamente como te vi algumas vezes. Eu a vi me olhando como você me olhava, até tive a impressão de sentir o seu cheiro, tive a impressão de que, se a beijasse, sentiria o gosto de uísque que ficava na sua boca de depois de beijar a minha. E que ela diria, como você sempre disse: “Beijos de andarilho”. Tocava Stones: “You can’t allways get what you want”, uma de nossas músicas. Jagger contava nossa história, e sempre soubemos disso, mesmo nos nossos melhores momentos. E dançava o sorriso, e brilhava, e subia pelas paredes, e recitava Neruda, e voava, e caia, e chegou pertinho, bem pertinho e disse: “Vai pra casa amor, você já bebeu demais por hoje”. E fui. Sou um rebelde, sempre te disse isso, mas nunca pude dizer “não” quando você sorria.

Do espaço, eu penso na menina com sorriso de bossa nova. Flutuo a esmo, desconheço a gravidade antes imposta aos que precisam pisar no chão, se é que precisam, se é que são, se é que chão. Supernovas mais antigas que o tempo dançam dezenas de milhares de anos luz no meio da escuridão quase absoluta. Se pudesse ligava e pedia uma pizza, pepperoni, pois as pílulas alimentam o corpo, mas não a vontade de mastigar. Tanto tempo aqui em cima que nem sei mais qual era o asteróide que procurava. O som não se propaga fora do traje, mas aqui dentro anda tocando a mesma música nesses últimos dias, e essa é a nossa energia.

- Você nunca mais me fez sorrir.
- Como assim?
- Sorrir, não. Dar risada, gargalhar.
- Desde quando?
- Desde muito tempo.
- Tipo como? Tipo gargalhar de sair coca-cola pelo nariz?
- Você sabe que detesto coca-cola.
- Saindo pelo nariz qualquer um detesta.
- É isso que você tem pra me dizer?
- O que você quer que eu diga?
- Sei lá, você podia pelo menos tentar me deixar animada.
- Quer que eu conte uma piada?
- Ah, tá, muito engraçado.
- Funcionou?
- Você sabe o que é ironia.
- Ah, eu sei, sei mesmo.

Martina tinha as respostas mais simples às mais inquietantes perguntas. Era um Nietzsche ao contrário.
“Quer café, Martina?”
“Tem leite em pó?”
“Tem”
“Então, não”
E era assim mesmo.
Nos dias em que estava esquisita, estranha, mais do que de costume, eu arriscava uns palpites. Mas não muitos.
Durante a semana, ela só dava bom-dia depois da segunda xícara de café.
“Tina, meu bem, tá com fome?”
“Não”
“Quer pegar um cineminha?”
“Não”
“Você cortou o cabelo, foi?”
“Não”
“As unhas…”
“Também, não”
Então, eu sabia que era melhor desistir por aí mesmo. Seria abusar da sorte.

“Pois é, não sei…” – ela disse.
Ainda hoje, todo dia quando escovo os dentes antes de dormir eu me pergunto.
Mas também não sei.
Nem desconfio.

O gato fica andando pela casa. Não sei o que gatos comem, provavelmente ratos. Deixarei de colocar veneno e ratoeiras, isso deve resolver.
Acordei com o gato me olhando perto da cama. Acho que ainda não encontrou nenhum rato. Presumo que esteja com fome. Verificando a geladeira descobri que só tenho cerveja e chocolate. Bati tudo no liquidificador e coloquei numa tigela. Ele comeu um pouco, subiu na cama e dormiu ao meu lado. Depois coloquei a tigela na geladeira, um de nós vai sentir fome mais tarde.

Anzóis de Pesca.
Sério?
É.
Aranhas, baratas, sei lá, solidão…?
Não, anzóis, com certeza. Dá agonia aquilo. Cê viu Hellraiser? Ah, e Salmonella!
Salmonella?
É, porra, Salmonella é foda.

 

Foda-se o amor.

Vamos todos nos apaixonar por idéias.

Enxergava ela com os ouvidos, enquanto enxugava as mãos na toalha encardida do banheiro. Vivia se prometendo que jogaria fora e compraria um desses conjuntos coloridos dos grandes magazines, pacote com três. Mas dali de onde estava, até a toalha parecia mais bonita, bastava ouvi-la. Os telefonemas eram como as fitas gravadas dos programas de rock na rádio, que passavam tarde da noite, sendo ouvidas no seu velho walkman, um presente que teve de usar de muita argumentação pra conseguir quando era garoto, devido ao medo da mãe de causar surdez. Ainda bem que não causou, pelo menos ainda, e ainda que alguns o chamem de surdo, de vez e quando, é bom enxergá-la com os ouvidos. É bom imaginá-la, e imaginá-la como se estivesse ali ao lado, mesmo sem tê-la visto jamais. Sem garantias e sem saber até quando, mas é bom por enquanto, apenas parte de um pensamento despenteado que agora voa nos seus jardins.

 

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