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Antônio levanta sempre de bom humor, ou quase sempre. Alguns hábitos se perdem com o tempo, como beijar sua mulher assim que acorda e lhe ofertar um musical bom-dia. Se espreguiça, coça as costas e vai tomar um banho frio. Quanto mais frio melhor. É assim que ele gosta. Enquanto está no banheiro sua mulher acorda e vai preparar o café da manhã.
Antônio não acha sua escova de dentes, tem duas mas ele não sabe qual a sua. Bom, tem uma vermelha e uma azul. Escolhe a azul. Se veste, se arruma, escolhe uma gravata ao acaso e chega à cozinha.
- Bom dia … – ele estaca, pára completamente, “Meu Deus, qual o nome dela ?” emenda – … meu bem.
Como pôde esquecer o nome da mulher ? Da sua mulher ? Sua companheira de … bom., de mais de vinte anos.
Ela responde o bom dia laconicamente. Lhe estende o café, ele toma quase de um gole só. “Não acredito, não me lembro”. Se sente um pouco assustado. Vai embora. Onde deixei as chaves do carro ? Encontra perto da porta. Vai embora. Desce o elevador ainda espantado. Chegando na garagem: Qual é o meu carro ?
- Minha nossa, o que está acontecendo comigo ?
Sai andando a esmo, vai olhando todos, não lembra.
- Doutor Antônio – ele se vira, coração descompassado – olha só, tá prontinho pro senhor, lavei por inteiro.
- Obrigado. – finalmente o carro.
Entra rápido, liga e faz manobra.
- E agora? Pra onde eu vou?
Estaciona o carro novamente. Vou pra casa! Sai e começa a procurar o elevador. Encontra. “Qual o andar?” Desce no segundo e vai olhando cada uma das portas. No sétimo andar já está desesperado, bate na primeira porta que encontra, não quer mais saber, vai perguntar, se preciso vai se declarar louco.
Bate. Ninguém atende. Bate novamente. Quando vai desistindo a porta se abre. É ele. Ele abre a porta, uma cópia, como um espelho que se movesse à revelia. Estudam-se por alguns segundos e o outro pergunta:
- Com licença, é aqui que você mora?

Hoje eu fui dormir antes do fim do mundo e acordei …, deu vontade de escrever poesia em papel de pão, em guardanapo de bar com o nome impresso, em parede branca e recibo do mc donald’s. Tinha que ser com caneta bic verde e, provavelmente eu falaria da árvore de genipapo que havia no quintal da casa da minha tia. Não, ainda há, ainda existe, as outras árvores foram derrubadas mas felizmente essa não. Tenho que voltar lá e subir naquela árvore como fazia há muito tempo atrás.
Bom, mas não sou poeta e quando brinco de imaginar outras realidades, levando em consideração que o mundo acabou mas ninguém percebeu, como se a realidade fosse pisar em folhas secas e, depois de todas elas terem caído e formado aquele tapete imenso, a graça toda fosse apenas caminhar descalço por ali e ouvir o barulho como se fosse música.
Sem pressa.

Janine tinha um eterno sorriso cínico no canto da boca. Eu tentava buscar maneiras de perdoar o sorriso e a sua visão crápula-armado-até-os-dentes-com-sorriso-de-menina que ela tinha do mundo. Ela adorava me chamar de canalha.
- Você é um canalha!
Ela dizia.
- Porra, Janine, o que foi que eu fiz agora?
- Não fez, mas eu sei que vai fazer.
E eu ficava ali achando graça, sorrindo por dentro. Falava alguma bobagem pra manter o papo rolando, mas a verdade é que eu estava pensando em outra coisa: Janine era um de meus experimentos humanos. Eu precisava tentar entender as pessoas. Naquela época eu ainda tinha essa ilusão de que pessoas poderiam ser “explicáveis” ou até “classificáveis”. E, Janine, vou te dizer, era inclassificável, o que me deixava, alucinado, apaixonado, até. Bom, pelo menos por um tempo, acho que senti amor. Daqueles de verdade, sabe? Não saberia explicar a sensação agora, faz muito tempo que senti isso. Desde…, sei lá, faz tempo.
Tapa!
- Tá pensando o quê, seu filho da puta?
Janine tinha um certo charme Dercy Gonçalves, mas não era velha, era gatinha, marquinha de bikini bem estudada, tomara-que-caia pra realçar, trocava olhares como esporte, e se sentia naquela obrigação mórbida de mostrar ao mundo que era feliz o tempo todo. Daí vinha o sorriso cínico que ela nem se dava conta. Egolatria como hobbie, ela se via fazendo auto-retratos com caras e bocas, cara de paisagem, olhinhos pro céu, dedo na boca, coisas do gênero.
Janine um dia me ligou às quatro da manhã dizendo que iria se matar.
- Putaqueopariu, Janine, preciso dormir, amanhã acordo cedo.
- Filho da puta!! A culpa vai ser sua!
Não. Minto. O que ela disse foi:
- Poxa, amor, sinto sua falta.
- Pô, xuxuzinha, quer que eu leve um vinho?
Não, não foi nada disso, porra. Foi mais ou menos assim:
- Acho que ficou uma calcinha minha na sua casa, não foi?
- Sério que você me ligou uma hora dessas pra perguntar isso?
- Tem ou não tem?
- Sei lá, depois eu procuro.
- Nem pense em fazer macumba com ela, tá ouvindo?
- Não, nem pensarei.
No próprio mundo submarino de Janine eu sempre estive de escafandro. E, mal sabia ela, faz tempo que aprendi a nadar.

Foi numa noite. Tinha ficado até mais tarde no trabalho. Escaneava velhas fotos somente para referência, somente para “desobstrução de espaço físico” como dissera seu chefe. Escanearia as fotos e depois as destruiria. Gravaria em cd para futura referência, o que ninguém acreditava que pudesse acontecer. Uma a uma as catalogava. Escaneava, catalogava. Horas a fio. Foi quando, por acaso, se deteve pra observar uma foto. Era simplesmente a coisa mais linda que já vira. Ficou imediatamente maravilhado, apaixonado por aquela mulher que nunca conhecera e que nem sabia se ainda existia. Foto antiga, ela provavelmente uma modelo, talvez uma atriz de teatro ou uma malabarista do circo. Mas não importava, ele não escanearia e nem jogaria fora, muito menos catalogaria a imagem que agora lhe estava em frente ao rosto. Estava apaixonado. Se o amor à primeira vista existia, ele acabara de ser atingido em cheio. Guardara a foto com carinho na carteira. Escaneou mais algumas e foi embora. Sentia-se como se saisse pra um encontro, no caminho compraria um vinho e o beberia à luz de velas. Ele e o seu retrato.A sua amada, sem nome, mas com um sorriso celestial. Bastava olhar a foto e lhe parecia ouvir violinos. Parou no velho mercado onde sempre fazia compras. Escolheu não um daqueles vinhos vagabundos que costumava tomar e que lhe deixavam com uma dor de cabeça infernal, não senhor, escolheu um dos caros. A ocasião exigia. Saiu do mercado feliz, segurando o saco de papel em uma das mãos, enquanto a outra mexia como a de um maestro, acompanhando seu assobio. Não percebeu dois estranhos o acompanharem até chegar perto de um beco. Foi empurrado e por pouco não perdeu o equilíbrio, caindo ao chão. Um dos homens o agarrou rapidamente, enquanto o outro lhe brandia uma arma junto ao rosto. Pegaram sua carteira. Não, deixem ela em paz. Eu a amo. Resistiu. Lutou. Foi atingido.
Morreu por amor.

 

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