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Às vezes fico horas apenas olhando pra ela enquanto ela fala sem parar. Mudo de posição, de ângulo de visão e fico observando de diversas maneiras, analisando, compondo poemas de três linhas, me aproximo, sinto seu cheiro, dou beijos sonoros enquanto ela continua falando sem parar. Adoro as sardas em suas costas e dei nome a quase todas. De vez em quando eu as reconto, pra ver se não apareceu uma nova, ou sumiu alguma. Ela ri muito, se diverte, fica com a pele toda arrepiada, grita, se contorce, gargalha, desafia com o olhar, e eu fico como se percorresse uma pequena galáxia. Digo que suas costas são meu universo particular, o meu mundo, meu pedaço de existência. Trepamos por horas. Ela me arranha, eu estapeio, fazemos muito barulho e por isso gosto de colocar música alta, Stones, Doors, um monte de coisas que ela diz que a obriguei a gostar e hoje ela ama. Seus olhos dizem que ela me ama, os meus repetem, mas a gente não fala. As palavras estragam tudo. Amar é uma merda mas, às vezes, é bom pra caralho.
Agora, após tanto tempo, ele ainda olhava para a máquina de escrever e para o papel branco. Ainda sentia um certo pavor, era como se cada movimento que ele desse fosse observado pelos objetos à sua frente, cada pensamento captado por aquelas teclas e pela imaculada brancura da celulose. Estava nervoso e suava incontidamente, precisava escrever, precisava romper essa barreira, quebrar momentos e descascar idéias. Agora havia a necessidade, imediata, desesperada em sua própria urgência. “Sim, o tempo urge”, ele pensou e teclou a primeira, então a segunda, terceira, e quando aconteceria a quarta o telefone tocou:
- Alô, é da casa do seu Alfredo ?
- Não.
Desligou. “E agora ?”, pensou, perdera todo o raciocínio, é verdade que havia escrito apenas três letras, mas era um começo, um começo interrompido de maneira abrupta e ridícula, arrancado de seu momento de concentração, suas idéias vilipendiadas pelo aparelho. Tocou novamente:
- Alô, o Alfredo, por favor.
- Minha senhora, não tem nenhum Alfredo por aqui.
Agora sentia uma revolta verdadeira e profunda. Parecia haver além do motim emocional na sua mente, a união de pessoas externas tentando interrompê-lo. Não, esqueça, sem paranóia. Escrever é um exercício, é um hábito que ele tem por anos mas, agora, o branco do papel que ele encarava como uma selva a ser desbravada heroicamente simplesmente o deixava confuso e apavorado. Tomou um café, deu uma volta, coçou a cabeça e encarou a máquina, que parecia olhá-lo com um certo escárnio. “Tac-Tac”, ele digitou rapidamente duas letras. Pronto, a primeira palavra estava formada, era dado o início, agora ele relaxara. Sentou-se confortavelmente e começou a digitar freneticamente. Os tac-tacs da máquina pouco a pouco se misturavam ao ar e lentamente tomavam o ambiente como que impregnado-o com boa música. Como um maestro, entre movimentos rápidos e certeiros, ele sorria.
Ela trabalhava numa lanchonete perto do meu trabalho. Eu era revisor de um pequeno jornal de bairro e tinha de cumprir um carga horária estúpida e desnecessária. O jornal era lançado mensalmente e, normalmente, eu só tinha acesso aos textos e matérias próximo do fechamento. Isso significa que eu passava uns vinte dias por mês sem ter o que fazer e, ainda assim, exigiam que eu ficasse por lá.
Lógico que eu vivia arrumando motivos pra sair. Com o salário miserável que me pagavam, nem se davam ao trabalho de me encher muito o saco. Na maioria das vezes, saia sem motivo mesmo e andava pelo bairro, ia ao shopping só pra ficar horas na livraria. Li alguns livros inteiros em pé, um ou dois capítulos por dia. Foi nessa época que desenvolvi meu vício por café.
Na lanchonete em que Anita trabalhava eles vendiam um café que era produzido na fazenda do sogro da dona. Era uma delícia. Eu reparei nela assim que a vi pela primeira vez. Dava bom dia, brigado, tchau, nada além disso. Aos poucos a conversa foi evoluindo um pouco, até um dia em que ela apareceu com um livro nas mãos: Ana Karenina.
“Esse era o livro que a moça carregava nas mãos pra impressionar o rapaz no livro de Milan Kundera.”
Ela me olhou espantada e sorriu.
“É verdade”, ela disse e não me deu muita bola.
“Nunca consegui terminar de ler, aquele livro me deprimia.”
“Eu não consegui parar de ler, passei uma noite em claro e segui manhã a dentro. Liguei pro trabalho, arrumei uma desculpa e só saí de casa depois de terminar.”
Ela me disse séria, parecia não entender se eu havia feito uma piada.
“Não tô brincando, é o único livro bom que deixei pela metade.”
“Você admite que é bom?”
“Claro.” Lógico que eu não iria descordar.
Pedi o café, bebi e fui embora, como sempre, mas fiquei interessado de verdade nela. Continuei indo dois ou três dias por semana na lanchonete, mas nunca tentava nenhuma gracinha. Ela não dava brecha, apesar de sempre ser muito simpática. Eu ficava calado admirando a sua beleza, rara, incomum, um sorriso lindo, apesar de ela falar fazendo caretas com um jeito de menina. Era dia dos namorados e eu só sabia disso por causa da edição especial do jornal feita dias antes, mais cheia de anúncios que de matérias, pouca coisa pra fazer da minha parte. Comentei com ela se iria sair pra comemorar.
“Que nada, estou solteira.”
Respondi que também estava.
“Meu namorado terminou comigo ontem. Ele mora longe, é meio complicado relacionamentos à distância.”
“Não acredito em relacionamentos à distância.”
“Estava indo bem por um tempo, mas foi se desgastando. Não estou mais apaixonada.”
Ela me contou sobre como precisava de espaço, como ele era carente e ligava várias vezes por dia e eu concordando que sempre tive problemas com relacionamentos pelos mesmos motivos.
“Tive poucos homens na minha vida e ele é o único que já amei.”
“Teve mais do que eu, com certeza”, brinquei, e ela riu muito.
Anita contou a história deles e eu fui fazendo hum rum, sim, ok, pois é, enquanto ela falava sem parar. O primeiro namorado, o segundo era esse, que passou um ano tentando conquistá-la, como era difícil a distância no início e a maneira como as coisas foram saindo do eixo. Terminei o café e fui embora. No outro dia, sentei o balcão, não pedi nada, obrigado, só vim até aqui pra te falar uma coisa.
“O quê?”
”Não vou passar um ano tentando te conquistar. Sei aceitar um não.”
Ela não disse nada, só ficou me olhando.
”Então, vou fazer o seguinte: Vou respeitar o luto de seu namoro e, daqui a um tempo, vou te convidar pra tomar um café.”
Ela sorriu.
“Cheio de segundas intenções, pode ter certeza.” eu disse, e fui embora sem deixar ela responder.
eu a conheci no dia em que todos os relógios pararam. logo que percebi, desci do ônibus e andei até uma barraca de cachorro quente e pedi um hamburguer. não tinha, eles não faziam isso. foda-se. “há vacas aos montes pelos campos verdejantes do mundo”, me percebi gritando. eu estava com fome e ela deveria estar também, já que parou ao meu lado e pediu um hot-dog com muito queijo ralado. fiquei lhe olhando de soslaio e quase esbocei um sorriso ao perceber que ela se sujava toda comendo o cachorro. “case com uma mulher que pareça uma criança comendo, elas ainda tem um pouco de felicidade dentro de si”, foi isso que meu pai me disse um dia. então, observando-a ali eu fiquei instantaneamente feliz percebendo que ela fazia quase tanta sujeira ao redor quanto eu comendo um acarajé. e olha que eu faço muita, especialmente quando tem pimenta. sim, eu já não me lembrava muito do que era ter um domingo de sol ao seu lado (nem ao meu). um domingo calmo como música de burt bacharah em lp. então pensei , “porque não vou lá e puxo conversa com ela?” ao que ela imediatamente perguntou: “tá falando comigo?”, eu estava pensando alto, muito alto, na verdade. velhos hábitos são difíceis de perder. “eu estou apenas esperando o ônibus”, sou bom em mentiras. “então, deveria estar do outro lado da rua, é onde fica o ponto”, ela disse, “sou péssimo mentiroso”, pensei. ela percebeu meu embaraço. eu não percebi nenhum da parte dela. “vc poderia me dizer que horas são?” ela perguntou e eu fiquei olhando um raio de sol bater no seu rosto enquanto a brisa fria balançava seus cabelos cor de fogo. “só amanhã”, respondi. “como?” perguntou, “só amanhã, hj os relógios pararam. todos.” ela sorriu sem entender. mas eu nem tentei explicar. eu queria pedir pra ela não se mexer, pra que aquele raio de sol não parasse de desenhar no seu rosto, mas o sol iria embora de qualquer jeito. e, qualquer um que passar por nós, ali, em um momento impresso no passado, jamais imaginaria que estamos simplesmente comemorando a inexistência do paraíso.
O negócio é simples, bem simples, as coisas são como são. Pronto. Entendeu? Não é uma questão de você aceitar isso ou não. Se você aceita, nada muda, se você não aceita, nada muda. Pois é, o Determinismo veio tomar uma cerveja comigo essa semana, a merda é que eu misturei com tequila no final da noite e acordei com uma dor de cabeça da porra no dia seguinte mas, voltando ao assunto, ele veio aqui, sentou na varanda comigo, pôs a mão no meu ombro e disse: “Rapaz, num vou te enganar, não, deu merda de novo”. Aí eu dei risada, fiz aquela expressão de “Qualé, tá querendo me inventar história em plena quarta de madrugada?” ele “Que nada, tú num confia em mim, não?”, engraçado é ter percebido que ele tinha um sotaque que eu não sabia definir de onde, mas me era vagamente familiar. Aí eu disse: “E não posso fazer nada?” “Nada.” “Nada mesmo?” “Pooooora nenhuma”, cocei a cabeça, ele pediu um cigarro, acendi outro pra mim, “Tem Bohemia, vai?” “Ô!” tomamos umas quatro long necks, calados, cada um com seus pensamentos, eu com milhões de perguntas que já sabia a resposta, ele com todas as respostas que pouco importam serem verdade ou não. Resolvi quebrar o silêncio: “Rapaz, acho que não aprendo” “hum-rum” “eu tava quieto, na minha, meio carente até, mas esse é meu estado normal, dá pra administrar até, e tava olhando a situação se formando, sabe? Aí você pensa: ‘Que nada que eu vou nessa, tá louco?’. Igual à história do português que vai andando pela rua, vê uma casca de banana e pensa: ‘Caramba, vou escorregar de novo’. Entende o que eu quero dizer?” “Meu amigo, eu sou o conceito disso, esqueceu? E aí, ela foi embora?” “Foi” “Viu? Eu sabia!”
Odeio filosofias.
Esse negócio de votar é legal. Legal pra caramba. Nem sei porque eu reclamo tanto. Um amigo me lembrou hoje da primeira vez que votamos, ao voltar de viagem e já ter quase passado do horário de votação. Tudo vazio, a maior paz lá no colégio onde estudamos juntos e aproveitamos pra passear e ver como estava o lugar, já que fazia algum tempo que não aparecíamos por ali. Bom, toda vez que ia votar era uma festa. Tem uma padaria bem em frente ao colégio e ali o pessoal sempre se reunia bebendo muita cerveja, que sempre foi vendida abertamente por ali e, eu mesmo, na época do colégio, comprava com vale-refeição cedido por meu pai. Devo dizer: é quase um milagre que eu e alguns amigos não sejamos desajustados, loucos e vagabundos depois da adolescência alcoólica e alucinada que tivemos, mas isso é uma outra história. O engraçado é ir e ver como tudo acontece: estacionei o carro um pouco distante, pra ninguém me ver chegando e ir direto votar sem ter que aturar uma porrada de candidato pedindo voto. Apesar da distância, com dez passos encontro o primeiro “Rapaz, é brincadeira, só te encontro de eleição em eleição” coisa que acontece com todo mundo em toda eleição em cidade de interior, apesar de aqui nem ser tão de interior assim. Mais uns três até chegar na cabine de votação e, na porta, completamente bêbado, um candidato levemente conhecido “Véi, conto com seu apoio, hein?” e eu digo o mesmo que disse antes a outros “Claro, lógico”. Voto e vou embora, com alguma saudade distraída da época em que chegava mais cedo pra encontrar o pessoal na padaria e beber até acabar o dia. Bons tempos, mas seria bom também um pouco de fé na nossa política, o que infelizmente, não mudou com o tempo.

