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Não é seu sorriso, é a sua boca
Como haveria de haver o seu sorriso
sem a sua boca?
Não é o seu olhar, são seus olhos
Como haveria sua maneira de me ver
sem seus olhos?
Não é sua maneira de me chamar
com jeito carinhoso quase disfarçado
Não é o fato de que ambos sabíamos o que víamos
quando nos olhamos pela primeira vez.
Não é o jeito com que você faz tantas expressões no rosto
quando quer falar.
Não é o fato de que ambos sabíamos,
É tudo, tudo que pode ser.
E é absolutamente nada.
Como sempre.
— O contentamento é uma coisa engraçada. Minto. O contentamento é uma merda. Porra, nada pior que estar satisfeito. Nada pior. O que a satisfação te traz? a satisfação já é o trazido em si. Já o por si, apenas. Estando satisfeito, o que você faz, o que cria, o que produz, o que escarra da própria alma num dia de chuva em que apenas deseja morrer rápido e indolor na varanda da casa?
— Samanta, acho que é melhor você parar de beber.
— Tá te incomodando a minha verborrágica análise da vida?
— Um pouco.
Samanta levanta e acende um cigarro no outro.
— Acha que bebi demais?
— Acho que a bebida te deixa satisfeita. Isso talvez derrube por terra seus argumentos.
— Seu sarcasmo costumava ter charme. Hummm…, não, não costumava.
— Bom, seu sarcasmo ainda é um desfile de lingerie.
— De fato. Tenho treinado.
— Diariamente, acredito.
— Oh, sim.
— Como se diz: A prática…
— Deixa-me te perguntar algo.
— Quando te impedi de fazer qualquer coisa que fosse?
— Que porras é isso que temos?
— Temos algo?
— Responde.
— Caralho, é preciso definir?
— Porque? Achas que não carece de definição? É evidente por si só?
— Não. Acho que apenas é o que é. Dar um nome tende a ser deveras complicado e, por conseguinte, trazer complicações.
— Vai colocar nas cervejas que tomou a culpa pela sua falta de bons argumentos?
— Que bons argumentos? Só houve um.
— Você é um estúpido.
— Sou.
— …
— …e não é por isso que você gosta de mim?
— Não, não é por isso. É por outra coisa.
— Então, desliga a luz e me conta.
— Filho da puta.
