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Tava sonhando com alguma coisa estranha, sonho agitado e de repente uma voz me trazendo de volta.
— Oi, o que vocês estão fazendo aqui?
Levantei meio de susto.
— Desculpa, você mora aqui?
— Não. Já tem um bom tempo que ninguém mora nessa casa.
— Como assim?
— O dono nunca mais apareceu, não temos mais notícias dele.
— Estranho. Uma amiga nossa – apontei Marco deitado no canto da varanda, ainda dormindo – esteve aqui e bom, ela conheceu uma espécie de guru, um orientador esperitual ou sei lá como se chama, e resolvemos aparecer.
— Oh, entendo.
Sacudi Marco pra que ele acordasse.
— Olha, na verdade, acho que vocês estavam procurando por nós.
— Procurando quem? Quem é essa moça?
— Acho que erramos o caminho, levanta aí.
Lá estava a poeira dançando no raio de luz. Ela não saberia dizer que música vinha do rádio que deixava displicente ao lado da cama, parecia uma mistura de ruídos em algum ritmo estranho onde um cara qualquer dizia palavras em um castelhano com voz de bêbado. O rádio tinha sua história própria. Ela não o desligava nunca, nem nas raras ocasiões em que saía do quarto, e ficava espantada que sua bateria não acabava nunca. Ou seria ele ligado na tomada? não, era bateria mesmo. Sabia disso porque as vezes caminhava com ele pelo quarto e deixava ele no peitoril da janela pra tomar um pouco de sol. Roubou-o um dia desses, mas já faz muito tempo. Estava sentada num banco de praça, ou num ponto de ônibus, e o rádio estava lá, ao lado dela, ao lado de outra pessoa e começou a tocar uma música na qual dizia “me pega pela mão, me leva com você”. Pegou e saiu correndo, nem ouvia mais o que a música dizia enquanto corria, só o som das batidas do coração nos ouvidos. Correu por muito tempo, por muitos tempos, mas descobriu onde parar.
— Se arrumem e me sigam, vou levar vocês ao acampamento – ela disse.
(continua…)
