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— É debaixo de uma chuva torrencial dessas que a gente se pergunta…, ou melhor, eu me pergunto: como é que você consegue me convencer a sair de casa e vir procurar um maluco no meio do mato que, Carol, que não é lá muito conhecida pela retidão de pensamento, achou o máximo e mudou a vida dela.
— Ah,claro, o certo seria eu, no papel de seu amigo, te deixar em casa deprimido, pensando no pé na bunda que levou.
— Não levei um pé na bunda. Nós conversamos e chegamos a um acordo.
— Tudo bem, fica se iludindo.
— Porra, você não sabe como foram as coisas.
— Meu amigo, depois de tantos relacionamentos, eu sei como são as coisas, pode crer.
— Tá, esquece.
Acendo um cigarro e fico olhando a fumaça. Nunca duas baforadas são iguais, nunca duas noites, nunca uma mulher é igual a outra, nunca mais a verei, nunca mais. Já chega.
— Como você começou a escrever?
— A pergunta é: Porque escrevo e não sou um escritor?
— Você é um escritor. Você escreve.
— Correr no calçadão não te faz um atleta.
— Lembro do seu primeiro conto publicado.
— Lembra porra nenhuma…
— Não lembro da história em si, lembro de você ter me contado a respeito.
— Não escrevo mais nada, esquece isso.
— Não?
Amarildo foi à luta
— Com licença, você sabe onde nós estamos? É que daqui de baixo não dá pra saber nem se é dia ou noite…
O guarda olha com certo desprezo, mas há uma ponta de simpatia no seu olhar.
— Quer saber mesmo? Estamos no mar de Minas.
— Minas Gerais?! Como assim? Minas não tem mar…
— Ah, não tá sabendo, não? Os militares podem tudo. Os mágicos podem tudo. E, bom, os alquimistas estão chegando.
Amarildo não saberia dizer em que ano estava, nem se estava em algum ano, pra falar a verdade. Examinou a cela ao seu redor. Tinha muita humidade e, olhando a pequena janela com grades no alto da parede, imaginava que raramente um raio de sol poderia, se muito, esgueirar-se por ali.
— Com licença… - chamou mais uma vez a atenção do guarda, que se aproximou um pouco da cela - Tem outras pessoas presas aqui além de mim?
— Bom, não que eu saiba.
— Estranhei o silêncio…
— O silêncio é bom. É o melhor desse trabalho.
— Preciso ir ao banheiro.
— Faz aí na sua cela.
— Aqui não tem onde, não tem um privativo ou nada do tipo.
— Faz no cantinho.
— Porra, amigo, aí é dureza, talvez eu precise passar a noite aqui, né?
— Tá, vou abrir a porta. O banheiro fica no final do corredor, à esquerda.
— Beleza, valeu.
Amarildo saiu procurando uma forma de escapar, mas antes precisou mesmo ir ao banheiro. Depois que saiu, correu pelo corredor até ver no seu final uma luz muito forte e viu que era um buraco, tinha plantas crescendo ao redor, mas quando chegou perto percebeu que eram pêlos, na verdade. Atravessou e pulou no espaço vazio com a luz cegando-o e caiu em algo macio. Demorou alguns instantes até que sua vista se acostumou a toda aquela luz e ele pôde ver que tinha caído de uma orelha imensa, pertencente a uma versão gigante de si mesmo que o olhava boquiaberto.
— Você era a minha dor de cabeça? - o gigante perguntou.
— Eu… Não sei. Não tenho idéia, eu estava preso em um lugar e de repente apareci aqui.
— Bom, você está livre e eu estou sem dor de cabeça. Pode seguir seu caminho.
— Bom, mas não sei pra onde ir, nem imagino onde esteja.
— Você está no começo de tudo e no fim de si mesmo. É um bom lugar pra se estar, se quer saber.
— Mas, qual o propósito disso tudo?
— Pare de buscar propósitos, Amarildo. Pode se servir de uma dose Vodka com suco de laranja, se quiser. E fique tranquilo, você não está sozinho. Terá boas companhias.
— Quem?
Outras miniaturas vieram em sua direção.
— Esses são outros diminutos que vivem por aqui: Síndrome do Pânico e Depressão.
— Oi, pode me chamar de Deprê.
— Vocês vivem aqui? Como assim?
Síndrome do Pânico nem ao menos o olhava nos olhos e parecia pronta pra sair correndo a qualquer momento.
— Ah, a gente se arruma em qualquer lugar por aí. - Deprê apressou-se em responder - Quer conhecer o lugar?
— Que lugar? Isso aqui é um cubículo branco sem portas nem janelas! Isso aqui não é lugar nenhum.
Os outros pareceram confusos.
— Tem certeza disso? - Deprê perguntou olhando para os lados - Eu posso ver uma janela ali, uma porta do outro lado. Não percebe a brisa?
— Não…
— Olha lá, acho que vai chover.
Subiu em direção à janela e, sem pensar, pulou dentro do ouvido novamente. Iria tirar aquela história a limpo. Foi andando pelos mesmos corredores esperando encontrar o guarda que o vigiava, mas ele não estava mais lá. No entanto, ficou feliz de encontrar a arma. Pegou-a e seguiu em direção à luz forte que vinha do final do corredor. Chegando lá, seus olhos levaram um tempo até se acostumar com a claridade excessiva, e então pode ver o que era: uma espécie de sala de controle.
— Ahá, então finalmente nos encontramos.
Virou e pôde ver uma versão idêntica de si mesmo, exceto pelo fato de ser mais velho, mais barrigudo e ter menos cabelo.
— Desculpe, deixe me apresentar: Sou o homúnculo do subconsciente, uma versão melhorada e aperfeiçoada de de você, a mera parte consciente. Fui fortalecido por anos, alimentado por traumas, robustecido pela canalhice e cinismo alheio, encorajado por foras e filhadaputices afins.
— Então deve ser por isso que apareci por aqui, pra limpar as merdas que você fez e arrumar a casa.
— Tolo! Nem faz idéia de com quem está se metendo. - puxou uma espada e avançou em sua direção - En Garde!
Tentou atirar com a arma, mas percebeu que estava sem balas e saltando de lado desviou e o acertou, mas não conseguiu arrancar a espada de suas mãos. O homúnculo avançou tentando um golpe final e usando a impulsão contra ele mesmo, Amarildo conseguiu empurrá-lo orelha afora. A queda foi longa e assim que alcançou o chão já procurava uma maneira de subir de volta. Amarildo correu em direção aos controles e logo conseguiu entender como funcionavam, manobrou o gigante e com uma rápida pisada, esmagou o homúnculo, que virou uma pasta amarela e logo se evaporou. Tinha o controle novamente.
Contou lentamente de dez a um, respirando pausadamente, até terminar a meditação. Seria um longo dia.
— Não.
