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Era como estar olhando pra um pedaço de seu corpo e saber que deveria estar doendo. Assim eu me sentia quando ficava parado e, entre um cigarro e outro, pensava no que havia feito da minha vida e nas decisões e escolhas que fiz. Bom, por isso era essencial que eu me mantivesse em movimento, trabalhando, arrumando a casa, correndo, ou até mesmo fazendo origami. Sei lá, eu estava descobrindo prazer até mesmo em lavar meias, por isso, é de se compreender que eu aceitasse o convite.
— E aí, vamo nessa?
Marco chegou com uma daquelas idéias esquisitas em que não consegue convencer ninguém a embarcar com ele e eu disse que tudo bem, iria.
— Sério?
— Pô, num tô falando?
Concordamos em fazer a viagem de ônibus, não sabíamos ainda o que iríamos encontrar, nem em que estado seria a volta.
— É um daqueles lance de Santo Daime ou algo do tipo?
— Num sei, não tenho a menor idéia.
— E pra que merda você quer ir conhecer esse cara?
— Rapaz, Carol foi lá no acampamento, disse que o cara é fantástico, mudou a vida dela.
— Certo…
— E daí que eu acho que a gente tá precisando de uma mudança, uma sacudida, um momento de iluminação, uma epifania, sei lá…
— Marco, eu tô bem, não tô precisando desse tipo de coisa, não…
— É, talvez no seu caso fosse melhor eu arrumar uma Epifânia pra você.
A viagem foi relativamente rápida. Descíamos nas paradas e tomávamos uma ou duas cervejas e Marco dizia que talvez fosse melhor não, tínhamos de estar com o corpo purificado, etc, e acabava bebendo mais uma. Não estava interessado nesse papo de guru, só queria me afastar um pouco da cidade e descansar.
A última parada foi no meio da estrada. Só havia uma placa escrito “Sarapalha” no início de uma estradazinha com o mato crescendo pra dentro.
— É aqui mesmo?
— Deve ser.
Seguimos caminho até encontrar outra placa dizendo a mesma coisa. E continuamos andando por horas. A noite chegou e logo lembramos que não trouxemos barraca nem comida. Já estava imaginando dormir ao relento quando avistamos uma pequena cabana com uma débil lâmpada iluminando uma varanda improvisada. Andamos até lá e batemos à porta.

(continua…)

Eu lembro bem do dia em que me apaixonei por uma música pela primeira vez. Foi num comercial da Nike. Eu já estava me apaixonando por basquete e ficava até tarde esperando as transmissões da NBA pela Bandeirantes. Eu tinha 12 anos e aquele comercial mudou a minha vida. Passei anos procurando pela música até que um dia, na casa de um amigo, estávamos escutando John Lennon e a música iniciou: Instant Kama. Eu, que na época praticamente só escutava Heavy Metal, comecei a descobrir os Beatles e o rock’n'roll.  

Sempre que começo a escutar os Rolling Stones fico com a impressão de que eles já compuseram tudo que eu gostaria de ter composto, em especial as letras.

Bom…, mas eu continuo tentando.

 

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